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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Cinco Sentidos

por aspalavrasnuncatedirei, em 24.02.08

 

Imagem Retirada da Internet

 

Primeiro foram os olhos que te trouxeram até mim. Devagar… devagarinho surgiste tu, vindo do nada e ocupando de forma avassaladora a tela da minha vida. Olhei-te. Observei-te. Admirei-te. Apreciei-te. Entraste-me na retina e não mais de lá saíste. Depois ouvi-te... Não foram palavras que escutei, foram acordes de harpa que fizeram retinir todas as campainhas do meu corpo, que embalaram as minhas células numa valsa de saltos altos à luz da Lua. Inalei-te… A que cheiras tu, meu amor? Que aroma é esse que se desprende de ti e como um néctar dos deuses me envolve nessa tua sedução. Que fragrância o teu corpo emana que se evapora para o meu corpo e que deixa a tua presença em mim? Toquei-te…que textura tem a tua pele? Não é seda, porque esta é magnífica e fria e o teu corpo é maravilhosamente quente. Não é linho, porque este é sublime e áspero e tu és sublimemente macio. Provei-te… no teu beijo há a luxúria do mais glamoroso vinho, há o requinte do mais caro champanhe, há a doçura da mais delicada sobremesa. Senti-te… e da troca de olhares, no gosto dos beijos, no toque de peles, no aroma dos corpos suados… apaixonei-me…

 

 

Como Se Eu Fosse...

por aspalavrasnuncatedirei, em 05.01.08

 

Imagem Retirada da Internet

 

 Aproxima-te… lentamente…com serenidade... como se eu fosse o trajecto que timidamente vens percorrer e o destino que vens conquistar. Fica perto… o suficiente para te ouvir respirar, para sentir o teu coração bater, para absorver o calor que se te evapora da pele. Contempla-me… como se eu fosse uma peça rara de fino cristal, um quadro valioso de um pintor famoso, uma gota de orvalho, singela, sobre o corpo aveludado de uma rosa. Sente-me... como se eu fosse um farrapo delicado de nuvem que esvoaça pelas janelas da tua vida. Toca-me... com delicadeza… como se eu fosse um pássaro acabado de nascer e desliza... desde a ponta dos dedos, passa pelas minhas mãos e vai subindo pela minha pele trémula e macia. Repousa o teu toque no meu rosto e segura-o… como se fosse o teu bem mais precioso. Deixa que a tua boca descubra o mel da minha boca e que os nossos lábios se unam num momento mágico de prazer. Permite ao teu nariz deslizar sobre as curvas do meu pescoço alvo e inalar da minha pele o meu aroma quente de mulher, o meu perfume fresco de menina. Desnuda o meu corpo frágil e liberta-me de tecidos e pudores e deita-me numa cama feita de amor, com edredons de penas feitos de desejo, lençóis bordados de carinho, almofadas engomadas de mimos.  Prepara-me um leito onde me sinta protegida, onde me aninhe em ti e me possa perder para me encontar. Solta a tua voz em doces ecos ao meu ouvido, faz-me crer que sou única, que sou diferente, que sou especial. Não prometas nada que não possas cumprir, não jures nada que não sintas, não queiras nada que não possas ter… não ofereças nada que não tenhas...


 

 

Lingerie

por aspalavrasnuncatedirei, em 09.12.07

 

                                                                                                                   Imagem Retirada da Internet

 

As mulheres têm vários segredos, um deles é a paixão fanática, e nem sempre assumida, por lingerie. A lingerie tem a ver com a paixão inabalável das mulheres por si próprias. Um amigo meu costuma dizer que a vantagem da lingerie é que uma mulher que não seja bem feita fica engraçada e uma mulher engraçada fica uma bomba. A lingerie está para as mulheres como os automóveis estão para os homens: tratam-se de objectos que aumentam o potencial de sedução e que, usados em conjunto, ou separadamente, dão prazer. A grande vantagem para nós mulheres, está obviamente no preço. Mas sejamos objectivas: a roupa interior ou é prática, confortável e sem charme, ou é deslumbrante, sexy e terrivelmente incómoda. Aperta onde não deve, tem rendas que arranham e arames que espetam, botões que só servem para enfeitar e chatear, fitas que dão nós cegos e outras particularidades que as transformam em verdadeiros objectos de tortura. E afinal para quê? Quando chega a hora H a última coisa em que um homem está a pensar é na lingerie da mulher com quem quer partilhar outros prazeres. Na pressa do momento quem-tem-vestido-o-quê- só é importante se for equacionado como quanto-tempo-se-demora-a-despir-o-que-se-tem-vestido.

 

As Crónicas da Margarida, Margarida Rebelo Pinto

 

 

 

Duche...

por aspalavrasnuncatedirei, em 25.11.07

 

 

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Desaperto o fecho da saia que apressada se rende a meus pés; dispo as ligas… do avesso… que incautas descansam sobre o chão, solto um… a um… os botões da camisa… abro a torneira e a água em jacto contrasta com a minha indolência. Meto-me debaixo do chuveiro e deixo que a água me revigore, me liberte do cansaço, me aqueça e me invada com uma sensação reconfortante de prazer. Não sei há quanto tempo aqui estou… não me consigo mexer, do meu pé esquerdo crescem raízes imaginárias que me libertam todo do cansaço, de todas as amarguras…. do meu pé direito as raízes absorvem toda a força que preciso para me manter de pé. De repente… sinto uma presença nas minhas costas e o calor de um corpo que reconheço como teu. Fico gelada… uma antítese corporal da água quente, que escorre sobre mim, e o sangue que me congelou nas veias… Tremulamente sinto as tuas mãos sobre o meu cabelo comprido…sinto o aroma doce do champô a deslizar sobre o seu comprimento e a despertar em mim sensações mágicas. Lentamente… recuperas a segurança que te caracteriza e os teus dedos molhados entrelaçam-se nos fios dourados da minha cabeça. Todo o meu corpo se arrepia… será da água que sinto cada vez mais quente? Será da pressão que exerces sobre o meu cabelo? Será o teu corpo… que se colou ao meu? Como uma esponja macia… a tua boca … desliza sobre a minha pele molhada… sinto-a no lóbulo das minhas orelhas… no meu pescoço de gazela… nos contornos do meu peito… na curva da minha barriga… inundas-me de prazer assim como a água que cai me inunda de vida, tomas o meu corpo nos entalhes do teu corpo porque sabes que te pertenço, entras em mim com a certeza que nos completamos assim como a água está convicta que se encaminha para o mar.

 

Chama Acesa

por aspalavrasnuncatedirei, em 26.08.07

 

 

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No ar dançava o inebriante aroma do incenso e no chão havia um trilho romântico de velas acesas, perfumadas. Uma a uma, deixei que me guiassem sabendo que me conduziriam até ti… encontrei-te… naquele esconderijo onde a luz era mais intensa. O quarto estava cheio de ti, a tua sombra era desenhada nas paredes pela chama das velas acesas, o teu perfume sobrepunha-se a todos os outros aromas. Aproximaste-te devagar e colocaste nos meus lábios um beijo leve e doce… tão doce, tão quente. Deixaste que o meu corpo se despojasse de roupa e de timidez e deitaste-me nua sobre as almofadas do chão. No leitor de CD tocavam acordes de Bach, nos copos escorriam as gotículas do vinho tinto, nos vidros gemiam os assobios do vento e o meu corpo tremia e desejava-te como se fosse a primeira vez. O amor fez-se… o amor faz-se… de pequenos gestos, de pequenos nadas, de insignificâncias. De velas e aromas, de palavras sussurradas ao ouvido, de arrepios na pele, de respiração a arfar, de corações a bater descompassados. A chama do amor não precisa ser uma chama avassaladora, que nos faz arder na sua combustão, mas tem que ser espevitada, tem que iluminar o corpo e a alma… para nunca se deixar morrer.


Ainda te lembras?

por aspalavrasnuncatedirei, em 12.07.07

 

Imagem Retirada da Internet

 

Ainda te lembras daquele fim de tarde? Daquele em que, exausto, te abandonaste na cadeira de baloiço da varanda e eu, com dons de Fada, decidi libertar-te do cansaço, soltar as amarras de todos os teus problemas e dar uma ordem de despejo a todas as tuas preocupações? A atmosfera era envolvente… o Sol escondia-se timidamente no Horizonte. O Vento afastou-se para não nos incomodar mas emprestou-nos a sua Brisa, suave o suficiente para fazer ondular o meu cabelo e arrefecer o teu corpo suado. Ainda te lembras? Preparei um café (exactamente como gostas… muito forte e muito quente, acertei?), acompanhei-o do teu melhor Whisky e ainda te presenteei com um bombom. Os teus olhos baços lentamente começaram a ganhar brilho e as tuas pestanas interrogativas prenderam-se nos meus movimentos. Estiraste o corpo… saboreaste lentamente cada gota do néctar que te oferecia misturado com as gotas dos meus beijos, numa mistura doce e quente de prazer. Massajei-te lentamente os pés, com os dedos húmidos de creme, deixei que as minhas mãos trilhassem as tuas pernas (desavergonhadamente, ainda te lembras?). Encontrei-te numa manifestação de virilidade e desejo que me fez demorar e prolongar cada movimento para te incendiar de prazer. Deitei-me sobre ti. Olhos nos olhos (sabes que adoro olhar-te nos olhos, ainda te lembras? Desembrulhei o papel do bombom, da mesma forma que me desembrulhei do cetim da camisa de noite e prendi-o, insinuante e sedutora, no meio da minha boca. Lentamente…muito lentamente… deixei que o bombom desenhasse no teu pescoço, no teu peito, na tua barriga, em todo o teu corpo, um fio de desejo e chocolate (e enquanto o bombom derretia em açúcar, nós derretíamos em mel, ainda te lembras?). Trinquei com prazer o bombom e dividi-o contigo num beijo apaixonado. Ainda te lembras?


 

Mergulho no Mar

por aspalavrasnuncatedirei, em 29.06.07

 

Imagem Retirada da Internet

 

Vagueava pela marginal quando os meus olhos repararam em ti. Estavas sentado à beira mar, perdido nesse teu mundo que fechas a sete chaves e onde não deixas ninguém entrar. (Pensarias em mim?) Lentamente fui ao teu encontro. Naqueles metros de areia que nos separavam revivi toda a nossa história. Todos os altos e baixos, os sorrisos e as lágrimas. Parei ao teu lado ignorando a tua presença e permiti aos meus olhos um mergulho na imensidão do mar. Senti o teu olhar incrédulo, as dúvidas que te assolaram naquele instante, as perguntas que calaste e as emoções que enterraste nos grãos de areia. Dei um passo e coloquei-me à tua frente. Nada disse, nada ouvi. Lentamente… desapertei, uma a uma, as sandálias e deixei-as cair. Levei as mãos ao pescoço e soltei o nó do meu vestido que desmaiou aos teus pés, desvendando-te o meu corpo alvo. Retirei o gancho do cabelo e deixei que os caracóis caíssem em cascata sobre os meus ombros nus, sobre o meu peito. A nossa troca de olhares era cada vez mais intensa, os nossos olhos diziam por nós tudo o que a boca calava, tudo o que o corpo pedia. Virei-me de costas e dirigi-me à beira mar. «-Que noite mágica.» (Recordo-me de ter pensado). Na água o reflexo de uma Lua Nova salpicada pelo brilho das estrelas. Ao meu lado a minha silhueta esguia e nua, atrás de mim, imóvel, sentado na areia… Tu. (Em que pensavas? Que desejos e imagens povoaram o teu pensamento?) Mergulhei. Senti o mar gelado a arrepiar-me a pele mas foi uma sensação breve porque naquele instante os teus lábios desprenderam-se da tua boca e vieram saborear o sal do meu corpo, aquecendo-o rapidamente. As tuas mãos, soltaram-se dos teus braços e vieram afagar o meu corpo molhado de mar e de amor. A tua alma, desprendeu-se do teu corpo e mergulhou em mim num momento indescritível de prazer. Depois, cheia de vida e de amor, renovada pelo mar e por ti, saí devagarinho…deixei que as ondas me levassem carinhosamente à tua presença. Novamente ali estava eu, nua à tua frente. Desta vez, dos fios do meu cabelo soltavam-se gotas de cristal que caíam sobre ti e te arrefeciam os desejos e o meu corpo pingava de amor por ti. Vesti-me em silêncio e a roupa molhada colou-se ao meu corpo numa intimidade que deveria ser tua. Coloquei-te docemente nos lábios um beijo salgado e fui-me embora… feliz… convicta de que o nosso amor é alquímico e que o meu mergulho no mar foi mais uma prova de que posso fazer amor contigo… sem nunca te tocar.
 

Posso Levar-te a Casa?

por aspalavrasnuncatedirei, em 27.06.07

Imagem: Campanha Publicitária da Luta Contra a Sida

 

«-Posso levar-te a casa?» Ouvi… e senti-me gelar. Olhei para o condutor do carro que parou ao meu lado e lá estavas tu, com o teu ar descontraído, como se ainda ontem nos tivéssemos visto. Não foi ontem… mas parece que foi… (tal é a tua presença em mim). Passou muito tempo desde a última vez que te vi, que te falei, que te toquei. Entrei. Dei-te um beijo tímido no rosto e rapidamente uma avalanche de recordações me envolveu. Continuas a usar o mesmo perfume (aquele aroma tão quente que sempre me deixou em brasa). «-Eu levo-te a casa», ouvi ao longe. A sensação que tive é que desde que entrei no teu carro, entrei noutra dimensão. Falavas de trivialidades, do que tinha sido a tua vida desde que nos separámos… mas eu nada ouvia, nada dizia… apenas sentia frio. Tocaste-me no joelho, quando meteste a mudança, e então acordei. Pediste desculpa, com um sorriso maroto, como se eu não soubesse que aquele “inocente” toque havia sido propositado. Olhei à minha volta, e embora estivesse bem longe de casa, percebi que aquele caminho me era familiar e, também ele, carregado de boas recordações! E, naquela altura, tive medo… Medo do caminho, de ti, mas acima de tudo… medo de mim! «Leva-me para casa», pedi-te com a voz a tremer. Mas tu ficaste surdo ao meu pedido e lentamente acariciaste a minha perna. Seguimos em silêncio. Paraste o carro naquele lugar onde outrora tantas vezes o fizeras, e disseste baixinho «- Senti tanto a tua falta». Envolveste-me num abraço que fez cair por terra todos os meus argumentos e defesas e foi então que, finalmente, o gelo se derreteu. Não sei quanto tempo ali fiquei, aninhada no teu abraço, perdida no teu cheiro, ansiosa por me perder no teu gosto. Lentamente, olhaste-me nos olhos e um arrepio de desejo percorreu todo o meu corpo. Nunca entendi o teu magnetismo, nunca percebi esse poder que exerces sobre mim, mas, naquele instante, percebi que seria incapaz de te negar o que quer que fosse. Puxaste-me para ti, sentaste-me no teu colo e, sem nunca retirares os teus olhos dos meus, abriste lentamente o fecho do meu vestido. Desviaste o teu olhar e pousaste-o, voluptuosamente, no meu peito, dando a perceber o quanto me desejavas. Senti o calor da tua boca e estremeci de prazer. Tremulamente, deixei que também os meus dedos desapertassem os botões da tua camisa, para que pudessem acariciar o teu peito, a tua barriga… Desapertei então o botão das tuas calças e lá estava a prova inegável de que me querias tanto quanto eu te queria. Entraste em mim e, como sempre, fiquei com a certeza de que os nossos corpos foram feitos à medida um do outro. Foi então que os teus olhos voltaram a procurar os meus… e por lá ficaram… Adoro fazer amor contigo assim, num abraço único… olhos nos olhos. Não existe melhor momento de comunhão dos  nossos seres.

Camisa Branca

por aspalavrasnuncatedirei, em 24.06.07

 

 

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Assim que cheguei à porta de casa percebi que estavas lá dentro. Rodei lentamente a chave na fechadura e nessa fracção de segundo fui assaltado por mil pensamentos. Estarias mesmo ali? Ao fim de tantos meses, depois de um silêncio tão grande? Claro que sim! O aroma do teu perfume é inconfundível e desde que cheguei ao Hall que fui invadido por ele.
Lentamente abri a porta e, como eu desejava, à minha frente estavas tu. Exactamente como sempre te imaginei. Tinhas a minha camisa branca vestida. Adoro ver-te com ela. E tu sabes disso, por isso a escolheste. As mangas levemente dobradas deixam ver a candura da tua pele, os botões, meio abertos, meio fechados, insinuam a curva do teu peito, a brancura do tecido deixa ver os contornos do teu corpo. Atrás de ti, e devido à claridade que entrava pela janela, visualizei a tua lingerie preta, as tuas pernas, e lá estavam as meias-ligas (huumm que sempre achei tão sexys).
Olhei-te nos olhos e percebi que lias os meus pensamentos. Tive vontade de te tirar a camisa branca, de te despir, de fazer amor contigo ali, no hall de entrada, e matar assim, todos os desejos, todas as saudades que tinha tuas. Mas tive medo de te assustar… (talvez por também eu estar assustado).
Aproximei-me, abracei-te com suavidade, com medo que fosses uma miragem e que eu estivesse a delirar. Com medo de te apertar com força e que tu te dissipasses como uma bola de sabão. «- É bom ter-te aqui.»  Foi a única coisa que sussurrei enquanto senti o meu rosto tocar no teu. Senti o teu corpo tremer. Nunca percebi se tremias de frio, porque lá fora a neve baptizava os incautos que passeavam na rua, e tu vestias apenas a minha camisa branca, se tremias de emoção por me sentir ali tão perto.  Não sei quanto tempo durou aquele abraço, mas senti que podia continuar assim o resto da noite… o resto da vida… e enquanto o abraço durasse, sabia que não ias voltar a partir.
Desprendeste-te do meu abraço e levaste-me para a cozinha. À minha espera estava uma mesa requintadamente preparada. Não esqueceste a elegância da toalha, a magia das velas, o meu vinho e o meu prato favoritos. Durante o jantar falaste de trivialidades e eu olhava-te sorridente e conversadora, com a minha camisa branca, e senti que não te podia voltar a perder, e que o teu lugar era ali. 
Fui preparar o café. Continuei a observar-te e percebi que apesar do teu corpo estar ali tão perto, o teu espírito tinha-se ausentado. Vi o teu olhar perdido na janela, observando a Vida a fluir lá fora. Num flashback recuperei a memória dos dias em que te perdias na paisagem da minha janela.
«- É bom voltar a estar aqui.»  Disseste, parecendo regressar. Por um momento senti a tua voz embargada e pensei que estivesses a chorar. Olhei-te novamente. Lá estavas tu, debruçada sobre a janela, com a minha camisa branca… e à contra luz voltei a ver os contornos do teu corpo…a tua lingerie preta… a renda das tuas ligas…Como uma trovoada inesperada de Agosto, aproximei-me de ti e tomei-te de assalto. Não pedi licença, não me fiz anunciar, tomei o teu corpo, no meu corpo, porque é meu, porque me pertence, porque ardia em desejo, porque quis fazer amor contigo desde que te vi ao entrar. E tu, entregaste-te como sempre fizeste, sem perguntar como nem porquê, deixaste-te ir como um rio que corre para o mar, como a folha que se deixa guiar pelo vento. E enquanto a neve gemia ao tocar nos vidros lá fora, tu gemias de prazer nos meus braços.
Fizemos amor ali, na mesa da minha cozinha, com a minha camisa branca a testemunhar aquela união dos nossos corpos. Levei-te para o quarto, para aquela cama tão fria desde que foste embora. Fizemos amor o resto da noite, como se quiséssemos recuperar todo o tempo perdido, como se tivéssemos medo que o tempo ainda nos voltasse a separar.
Adormeci exausto. Adormeci feliz. Estavas ali outra vez, em minha casa, no meu quarto, na minha cama, protegida pelos meus lençóis.
De manhã acordei… sozinho… uma brainstorming assolou os meus pensamentos. Teria sonhado contigo? Terias realmente estado ali? Teria feito amor contigo? Sinto tanto a tua falta que já não distingo os sonhos daquilo que é a realidade… mas parecia tão real…  Fechei os olhos na esperança de voltar a sonhar contigo, aninhei-me no teu corpo imaginário, deslizei as minhas mãos pelo espaço que naquela cama te pertencia e senti, debaixo da almofada algo que me era familiar… Esbocei um sorriso. Levaste novamente o teu ser, o teu corpo, a tua alma, mas deixaste o teu perfume… na minha camisa branca.                                                  

                                                                                                                                                                                       

Na Cauda do Teu Piano

por aspalavrasnuncatedirei, em 20.06.07

 

Imagem: Michelle Pheifer, Fabulosos Irmãos Baker

  

 

Meti a chave à porta e ao meu encontro vieram as notas musicais do teu piano de longa cauda negra. Mesmo antes de ver a expressão do teu rosto, percebo que não estás bem. Só tocas piano quando os teus dias são amargos, só quando a pressão é tão forte que te faz explodir. Nesses momentos, os teus dedos, como varinhas mágicas, transferem para as teclas, todas as emoções que habitam em ti. Invejo-as, porque lhes tocas, são aquelas teclas frias que recebem o calor da ponta dos teus dedos. São elas que são acariciadas e gemem por ti. Queria que me entregasses o teu medo, a tua raiva, a tua frustração, que fizesses de mim a tua alma conselheira. Mas não, é sempre o piano. Amor… eu sou mulher, sou a tua companheira, aquela que te ama e estará sempre aqui... e "sei-te de cor"… Hoje decidi ganhar esta guerra fria e vou entrar nessa partitura. Vou entrar no teu mundo de angústias e roubar ao piano o toque que é meu. Tomo um banho perfumado, passo aquele creme que guardo para os momentos especiais em todas as células do meu corpo. Visto o vestido vermelho de cetim que me escorrega lindamente no corpo. Aquele cujo decote faz adivinhar os contornos do meu peito, o redondo da minha anca, a rigidez das minhas coxas. Calço uns sapatos pretos agulha. Ponho Rímel preto nos olhos e um Batom vermelho. Não esqueço o perfume... aquele que te embriaga e que deixa zonzo como se eu fosse um forte licor. Apago as luzes. Acendo uma vela. Queimo um incenso. Começo a cantar Making Whoopee. Sei que adoras a Michelle Pheifer, que é a mulher dos teus sonhos, aquela das tuas fantasias… mas eu... eu sou real… e estou aqui. Subo para o piano, o vestido sobe insinuando-te debaixo dele,  o meu corpo nu. Sento-me perto, cruzo as pernas, e da minha boca continuam a sair doces acordes. Levemente, deixo-me cair para trás, deposito o meu corpo na cauda do teu piano. O meu cabelo espalha-se pelas teclas. A música pára. Huuummm, e agora???

 

  

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