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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Mulher Fantástica - O Livro

por aspalavrasnuncatedirei, em 14.07.08

 

 

 

 

 

Cá está ele! Finalmente os textos que há muito desejávamos ver impressos, não só eu como também os meus visitantes, já podem ser adquiridos. Como fazê-lo?  O leitor pode contactar-me através do e-mail sandra_sofiabarbosa@sapo.pt e ficará a saber todos os pormenores.
 
Deixo-vos a sinopse para aguçar a vossa curiosidade.
 
Sinopse
Quem é a mulher fantástica? É toda aquela mulher que ao longo da vida consegue ser extraordinariamente bonita e feminina? Que é boa esposa, uma fogosa amante, a namorada exemplar? Ou a super-mãe, a amiga verdadeira e ainda a que consegue ser a melhor profissional no seu local de trabalho? Essencialmente, neste livro, descobrimos que é a mulher que pelo menos uma vez na vida já amou, já se sentiu amada mas também aquela que um dia sofreu por amor. Em suma, a Mulher Fantástica, mesmo que ainda oculta, são todas e cada uma das mulheres que somos e conhecemos.
 
Não pense que este livro se destina exclusivamente ao sexo feminino: ele pode até ser muito útil aos homens. Aqui encontrará pistas para compreender porque choram as mulheres por nada, ou porque sorriem sem razão aparente, ou até porque razões dizem “não” quando querem dizer “sim”.
 
As vozes deste livro são as mulheres fantásticas com quem nos cruzamos diariamente, que fazem (ou fizeram) parte da nossa vida, com as suas histórias, emoções, encantos e desencantos. A autora assume-se protagonista em alguns destes desabafos e transporta-nos ao sentimento que transborda nos rostos de onde caíram lágrimas, à fonte de luz em olhos que brilharam de alegria, ao desacerto de corações que bateram descompassados num momento determinado da sua vida.
 
Um blogue (http://aspalavrasnuncatedirei.blogs.sapo.pt) foi a forma que a autora encontrou para exorcizar as suas vivências e imaginação, e onde, de algum modo, pressentiu que outros corações se poderiam rever e querer contribuir através dos seus pontos de vista, como se de um exercício de pintura emocional colectiva se tratasse. A participação que daí adveio superou as suas expectativas: no decorrer de um ano e meio, diversos prémios atribuídos, para cima de 415.000 visitas e um número elevado de participações, comentários, desafios, confidências, desabafos, amizades, semelhanças e diferenças.
 
Há momentos em que um livro não chega para expressar tudo o que vai dentro de nós, não é suficiente para obter respostas às nossas perguntas ou para acalmar as nossas preocupações. Um virar de página não chega para uma vida que se quer nova ou, pelos menos, diferente.
 
Quantos (quantas?) haverá que sentem, como a autora, aquele formigueiro insistente na pele sensível da alma, apaziguada apenas pelas palavras que brotam em corrente incontida dos nossos lábios? São palavras que queimam por dentro e que têm razões próprias que muitas vezes escapam à nossa racionalidade culturalmente moldada, que se insinuam em cada gesto, que se erguem das nossas memórias e pintam os desejos de cores que só existem na escrita. Mas estas palavras ambicionavam ser mais que palavras: constituíam-se como um manifesto de partilha e de questionamento pessoal numa libertação pública catártica, num convite expresso e à urgente libertação de todos os que passavam naquele blogue.
 
Porquê um livro, agora? Porque os visitantes do blogue assim o pediram insistentemente e porque nestes textos se reconhecia a capacidade desta substância poder ocupar duas formas: o blogue e o livro. Mulher Fantástica é uma mulher em forma de livro, e este livro é para si.


 

Convite

por aspalavrasnuncatedirei, em 09.06.08

  

 Imagem Retirada da Internet

 

Caríssimos visitantes e amigos da blogosfera: o livro já se encontra no "forno" e já estão a ser dados os retoques finais. Gostaria muito de ter a vossa participação também neste projecto e desta forma venho convidar-vos a deixar um comentário, uma opinião aos meus textos, para que possam ser incluídos nas páginas do livro. Sem a vossa presença e participação, esta edição teria sido impossível, por isso gostaria muito de contar com as vossas palavras. Inspirem-se... eu fico à espera! Desde já, muito obrigada pela disponibilidade. Beijinhos, fiquem bem.

 

 

Do Blog ao Livro

por aspalavrasnuncatedirei, em 02.06.08

  

Imagem Retirada da Internet

 

Quando o discipulo estiver pronto o Mestre aparece”. Esta foi sempre a máxima que tive em mente no que diz respeito à publicação dos textos do blog. Com muita frequência os meus visitantes diziam que eu deveria transformar os posts em páginas de um livro, ao que sempre respondi que esse era um dos sonhos que tencionava, um dia, poder vir a realizar. Pois é, meus amigos da blogosfera, parece que esse dia finalmente chegou e o meu coração já não cabe no peito de tanta felicidade. Recentemente recebi a visita de uma Coordenadora Editorial que me disse que gostava da forma como escrevia e deixou nos comentários o seu endereço electrónico para a poder contactar. Foi com as mãos a tremer que lhe enviei o e-mail com os meus dados, foi com a voz embargada que marquei a reunião e foi com os olhos a brilhar que ouvi o «-Sim, vamos publicar». Agora estamos na fase da operacionalização deste projecto, por isso um dia destes terei o prazer de vos convidar para o lançamento do livro. Não posso deixar de agradecer às inúmeras pessoas que diariamente passam por aqui e me deixam os seus comentários, os seus elogios ao que escrevo e retribuir-lhes esse carinho. A vossa simpatia fez sempre com que a minha vontade de escrever fosse maior, e o vosso incentivo nunca me fez deixar de editar posts. A todos, de coração, o meu muito obrigada. I feel good - James brown

Detalhes

por aspalavrasnuncatedirei, em 11.07.07

 

 Imagem Retirada da Internet

 

 

Não, não tentes apagar-me da tua vida porque durante muito tempo no teu coração, eu vou viver. Aqueles detalhes, tão pequenos e insignificantes de nós dois vão persistir, resistir, porque são coisas muito grandes para esquecer. E a cada passo que deres, nessa tua vida tonta, agitada, vão estar presentes… vais ver. O olhar meigo, o sorriso, as coxas macias e acetinadas, a voz embargada, o corpo, a alma, ou qualquer outra coisa assim, imediatamente, vão fazer-te… lembrar de mim. Calculo que outra mulher deva estar a sussurrar ao teu ouvido, palavras de amor como eu sussurrei, mas eu duvido… duvido que ela tenha tanto amor e até as metáforas do meu português ruim, e em todos esses momentos…vais-te lembrar de mim. À noite, quando a lua e as estrelas entrarem pela janela e envolverem o silêncio do teu quarto, antes de dormir procuras a minha imagem. Mas da moldura não sou eu quem te sorri, apesar disso, ouves as minhas gargalhadas mesmo assim, e tudo isto vai fazer-te… lembrar de mim. Se os dedos de alguém tocarem o teu corpo como eu... não digas nada. Quando a boca que te saborear o sal da pele, não for a minha... nada digas. Cuidado…. para não gemeres o meu nome baixinho, sem querer, à pessoa errada… Pensando que é amor o que sentes nesse instante, desesperado, tentas até o fim… e até nesse momento mágico… vais-te lembrar de mim. Eu sei que todos estes detalhes vão evaporar-se na longa estrada. O tempo tem o dom de transformar um grande amor em quase nada. Mas também é mais um detalhe, uma história de amor como a nossa, não vai morrer assim… por isso, de vez em quando… vais-te lembrar de mim.

 

 

Mergulho no Mar

por aspalavrasnuncatedirei, em 29.06.07

 

Imagem Retirada da Internet

 

Vagueava pela marginal quando os meus olhos repararam em ti. Estavas sentado à beira mar, perdido nesse teu mundo que fechas a sete chaves e onde não deixas ninguém entrar. (Pensarias em mim?) Lentamente fui ao teu encontro. Naqueles metros de areia que nos separavam revivi toda a nossa história. Todos os altos e baixos, os sorrisos e as lágrimas. Parei ao teu lado ignorando a tua presença e permiti aos meus olhos um mergulho na imensidão do mar. Senti o teu olhar incrédulo, as dúvidas que te assolaram naquele instante, as perguntas que calaste e as emoções que enterraste nos grãos de areia. Dei um passo e coloquei-me à tua frente. Nada disse, nada ouvi. Lentamente… desapertei, uma a uma, as sandálias e deixei-as cair. Levei as mãos ao pescoço e soltei o nó do meu vestido que desmaiou aos teus pés, desvendando-te o meu corpo alvo. Retirei o gancho do cabelo e deixei que os caracóis caíssem em cascata sobre os meus ombros nus, sobre o meu peito. A nossa troca de olhares era cada vez mais intensa, os nossos olhos diziam por nós tudo o que a boca calava, tudo o que o corpo pedia. Virei-me de costas e dirigi-me à beira mar. «-Que noite mágica.» (Recordo-me de ter pensado). Na água o reflexo de uma Lua Nova salpicada pelo brilho das estrelas. Ao meu lado a minha silhueta esguia e nua, atrás de mim, imóvel, sentado na areia… Tu. (Em que pensavas? Que desejos e imagens povoaram o teu pensamento?) Mergulhei. Senti o mar gelado a arrepiar-me a pele mas foi uma sensação breve porque naquele instante os teus lábios desprenderam-se da tua boca e vieram saborear o sal do meu corpo, aquecendo-o rapidamente. As tuas mãos, soltaram-se dos teus braços e vieram afagar o meu corpo molhado de mar e de amor. A tua alma, desprendeu-se do teu corpo e mergulhou em mim num momento indescritível de prazer. Depois, cheia de vida e de amor, renovada pelo mar e por ti, saí devagarinho…deixei que as ondas me levassem carinhosamente à tua presença. Novamente ali estava eu, nua à tua frente. Desta vez, dos fios do meu cabelo soltavam-se gotas de cristal que caíam sobre ti e te arrefeciam os desejos e o meu corpo pingava de amor por ti. Vesti-me em silêncio e a roupa molhada colou-se ao meu corpo numa intimidade que deveria ser tua. Coloquei-te docemente nos lábios um beijo salgado e fui-me embora… feliz… convicta de que o nosso amor é alquímico e que o meu mergulho no mar foi mais uma prova de que posso fazer amor contigo… sem nunca te tocar.
 

Camisa Branca

por aspalavrasnuncatedirei, em 24.06.07

 

 

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Assim que cheguei à porta de casa percebi que estavas lá dentro. Rodei lentamente a chave na fechadura e nessa fracção de segundo fui assaltado por mil pensamentos. Estarias mesmo ali? Ao fim de tantos meses, depois de um silêncio tão grande? Claro que sim! O aroma do teu perfume é inconfundível e desde que cheguei ao Hall que fui invadido por ele.
Lentamente abri a porta e, como eu desejava, à minha frente estavas tu. Exactamente como sempre te imaginei. Tinhas a minha camisa branca vestida. Adoro ver-te com ela. E tu sabes disso, por isso a escolheste. As mangas levemente dobradas deixam ver a candura da tua pele, os botões, meio abertos, meio fechados, insinuam a curva do teu peito, a brancura do tecido deixa ver os contornos do teu corpo. Atrás de ti, e devido à claridade que entrava pela janela, visualizei a tua lingerie preta, as tuas pernas, e lá estavam as meias-ligas (huumm que sempre achei tão sexys).
Olhei-te nos olhos e percebi que lias os meus pensamentos. Tive vontade de te tirar a camisa branca, de te despir, de fazer amor contigo ali, no hall de entrada, e matar assim, todos os desejos, todas as saudades que tinha tuas. Mas tive medo de te assustar… (talvez por também eu estar assustado).
Aproximei-me, abracei-te com suavidade, com medo que fosses uma miragem e que eu estivesse a delirar. Com medo de te apertar com força e que tu te dissipasses como uma bola de sabão. «- É bom ter-te aqui.»  Foi a única coisa que sussurrei enquanto senti o meu rosto tocar no teu. Senti o teu corpo tremer. Nunca percebi se tremias de frio, porque lá fora a neve baptizava os incautos que passeavam na rua, e tu vestias apenas a minha camisa branca, se tremias de emoção por me sentir ali tão perto.  Não sei quanto tempo durou aquele abraço, mas senti que podia continuar assim o resto da noite… o resto da vida… e enquanto o abraço durasse, sabia que não ias voltar a partir.
Desprendeste-te do meu abraço e levaste-me para a cozinha. À minha espera estava uma mesa requintadamente preparada. Não esqueceste a elegância da toalha, a magia das velas, o meu vinho e o meu prato favoritos. Durante o jantar falaste de trivialidades e eu olhava-te sorridente e conversadora, com a minha camisa branca, e senti que não te podia voltar a perder, e que o teu lugar era ali. 
Fui preparar o café. Continuei a observar-te e percebi que apesar do teu corpo estar ali tão perto, o teu espírito tinha-se ausentado. Vi o teu olhar perdido na janela, observando a Vida a fluir lá fora. Num flashback recuperei a memória dos dias em que te perdias na paisagem da minha janela.
«- É bom voltar a estar aqui.»  Disseste, parecendo regressar. Por um momento senti a tua voz embargada e pensei que estivesses a chorar. Olhei-te novamente. Lá estavas tu, debruçada sobre a janela, com a minha camisa branca… e à contra luz voltei a ver os contornos do teu corpo…a tua lingerie preta… a renda das tuas ligas…Como uma trovoada inesperada de Agosto, aproximei-me de ti e tomei-te de assalto. Não pedi licença, não me fiz anunciar, tomei o teu corpo, no meu corpo, porque é meu, porque me pertence, porque ardia em desejo, porque quis fazer amor contigo desde que te vi ao entrar. E tu, entregaste-te como sempre fizeste, sem perguntar como nem porquê, deixaste-te ir como um rio que corre para o mar, como a folha que se deixa guiar pelo vento. E enquanto a neve gemia ao tocar nos vidros lá fora, tu gemias de prazer nos meus braços.
Fizemos amor ali, na mesa da minha cozinha, com a minha camisa branca a testemunhar aquela união dos nossos corpos. Levei-te para o quarto, para aquela cama tão fria desde que foste embora. Fizemos amor o resto da noite, como se quiséssemos recuperar todo o tempo perdido, como se tivéssemos medo que o tempo ainda nos voltasse a separar.
Adormeci exausto. Adormeci feliz. Estavas ali outra vez, em minha casa, no meu quarto, na minha cama, protegida pelos meus lençóis.
De manhã acordei… sozinho… uma brainstorming assolou os meus pensamentos. Teria sonhado contigo? Terias realmente estado ali? Teria feito amor contigo? Sinto tanto a tua falta que já não distingo os sonhos daquilo que é a realidade… mas parecia tão real…  Fechei os olhos na esperança de voltar a sonhar contigo, aninhei-me no teu corpo imaginário, deslizei as minhas mãos pelo espaço que naquela cama te pertencia e senti, debaixo da almofada algo que me era familiar… Esbocei um sorriso. Levaste novamente o teu ser, o teu corpo, a tua alma, mas deixaste o teu perfume… na minha camisa branca.                                                  

                                                                                                                                                                                       

Na Cauda do Teu Piano

por aspalavrasnuncatedirei, em 20.06.07

 

Imagem: Michelle Pheifer, Fabulosos Irmãos Baker

  

 

Meti a chave à porta e ao meu encontro vieram as notas musicais do teu piano de longa cauda negra. Mesmo antes de ver a expressão do teu rosto, percebo que não estás bem. Só tocas piano quando os teus dias são amargos, só quando a pressão é tão forte que te faz explodir. Nesses momentos, os teus dedos, como varinhas mágicas, transferem para as teclas, todas as emoções que habitam em ti. Invejo-as, porque lhes tocas, são aquelas teclas frias que recebem o calor da ponta dos teus dedos. São elas que são acariciadas e gemem por ti. Queria que me entregasses o teu medo, a tua raiva, a tua frustração, que fizesses de mim a tua alma conselheira. Mas não, é sempre o piano. Amor… eu sou mulher, sou a tua companheira, aquela que te ama e estará sempre aqui... e "sei-te de cor"… Hoje decidi ganhar esta guerra fria e vou entrar nessa partitura. Vou entrar no teu mundo de angústias e roubar ao piano o toque que é meu. Tomo um banho perfumado, passo aquele creme que guardo para os momentos especiais em todas as células do meu corpo. Visto o vestido vermelho de cetim que me escorrega lindamente no corpo. Aquele cujo decote faz adivinhar os contornos do meu peito, o redondo da minha anca, a rigidez das minhas coxas. Calço uns sapatos pretos agulha. Ponho Rímel preto nos olhos e um Batom vermelho. Não esqueço o perfume... aquele que te embriaga e que deixa zonzo como se eu fosse um forte licor. Apago as luzes. Acendo uma vela. Queimo um incenso. Começo a cantar Making Whoopee. Sei que adoras a Michelle Pheifer, que é a mulher dos teus sonhos, aquela das tuas fantasias… mas eu... eu sou real… e estou aqui. Subo para o piano, o vestido sobe insinuando-te debaixo dele,  o meu corpo nu. Sento-me perto, cruzo as pernas, e da minha boca continuam a sair doces acordes. Levemente, deixo-me cair para trás, deposito o meu corpo na cauda do teu piano. O meu cabelo espalha-se pelas teclas. A música pára. Huuummm, e agora???

 

  

Cascata Mágica

por aspalavrasnuncatedirei, em 18.06.07

 

Imagem Retirada da Internet

 

«- Vou levar-te a um lugar mágico.» Disseste com aquele teu sorriso que me desarma e com a certeza de quem conhece todos os cantos do mundo. Não duvidei, como poderia duvidar? Apenas confiei e deixei-me guiar. Cada momento contigo, cada lugar, ganhava um brilho especial, apenas e só, porque estávamos juntos. Atravessámos um bosque, que parecia encantado, acompanhados pelo chilrear dos pássaros, pela brisa quente de um final de tarde, e pelo murmurar longínquo de uma queda de água. Parámos, aqui e ali, apenas para nos reabastecermos de beijos, carícias, olhares cúmplices e para trocar juras de amor. O fresco borbulhar do regato, que se adivinhava mais do que se via, era interrompido, a espaços, por raios de sol quentes que se colavam à nossa pele justificando a tua promessa. A magia acompanhava-nos desde o instante em que me deste a mão e disseste: “-Vem, é por aqui.”  No fim desse caminho secreto, onde percorreste, não só a minha alma, como também os meus lábios, de uma forma que só tu sabes fazer, colocaste-te à minha frente, agarraste-me o rosto com as mãos, e murmuraste com voz doce, aumentando ainda mais a minha curiosidade: “- Fecha os olhos!”  De olhos fechados, de mãos dadas contigo, percorri os últimos 5 metros e deliciei-me com o som da água a cair. “- Podes abrir!”  disseste.  De repente, as árvores que nos escondiam, abriram os braços, e à minha frente, majestosa e deslumbrante, surgiu uma imponente cascata. Mágica de facto, e nesse instante tantas emoções transbordaram em mim: alegria, deslumbramento, um medo terrível de te perder, a tristeza de um dia ter de partir…. O tempo parou, a vida ficou suspensa, só existíamos nós dois, o pôr-do-sol alaranjado, e aquela cascata. Ao chegar à praia deserta, tirei o meu vestido como se estivesse na intimidade de um quarto, que o mundo reservou para nós dois, feito de areia e mar, de brisa e sol, de magia e realidade. Suavemente, deixei que o vestido descobrisse os contornos do meu corpo, que te tinha prometido ao longo do caminho, deixei que sentisses que a minha pele estava sedenta dos teus lábios e do toque das tuas mãos. Olhaste-me intensamente e, no brilho dos teus olhos, li o quanto me desejavas. Avançaste lentamente, sem nunca desviar o olhar, e eu, a sorrir, recuei passo a passo, para despertar ainda mais o prazer dos teus sentidos… ou seria dos meus? Deixei que a cascata acalmasse o calor da minha pele… “- Vem…” balbuciei, sabendo que eu era o teu território, ávido por ser explorado, e nós dois juntos, formávamos a magia daquele lugar. “-Vem…”. Insisti. Riste-te, com um sorriso iluminado e ganhaste tempo. Então, maliciosamente, sem nunca desviar os meus olhos dos teus, tirei o meu bikini como quem coloca o ponto final numa doce discussão... Quando te aproximastes, sabia que te queria, sabia que me querias. Deixei de ver a silhueta do teu corpo e, na água apenas vi reflectida a Lua que acabara de chegar. Não te vi, mas senti-te. Os teus lábios quentes percorreram as minhas pernas, a minha barriga, o meu peito, vieram à tona e submergiram novamente, mas desta vez, na minha boca, ao mesmo tempo que um arrepio percorria rapidamente todo o meu corpo e me deixava abandonada em ti. O beijo que me deste, envolvente, com uma mistura de açúcar e sal, levou-me ao céu, mostrou-me as estrelas, e depositou-me devagar os entalhes feitos à medida do teu corpo. Naquele instante, fomos um só, haverá melhor magia que esta? Fizemos amor devagar “- Donos do tempo!” - recordo-me que disseste, olhos nos olhos, numa comunhão perfeita de “ser”, “estar” e “querer”, testemunhados pela cascata, iluminados pelo luar, alimentados por um amor que há tanto tempo se fazia esperar e que agora, finalmente, se cumpria.
.
 

Mulher de Folhos

por aspalavrasnuncatedirei, em 14.06.07

 

Imagem Retirada da Internet

 

Entro na sala de aula e volto a sentir o nervoso miudinho de um menino acabado de chegar à Escola pela primeira vez. Sento-me na última carteira para ver se ninguém dá pela minha presença. A lição já vai a meio e tu deslizas de um lado para o outro como uma fada de giz na mão a fazer de varinha de condão. Tentas captar em ti a atenção dos alunos. Ensinas-lhes poesia. Tu és poesia. Em ti leio os mais belos versos de amor. Dizes qualquer coisa sobre um escritor, acho que se chama Cesário Verde. Não percebo bem o que dizes, não consigo estar atento. Distrais-me. Distraio-me com os teus movimentos, com o som da tua voz, com o teu sorriso. De repente, dizes algo com que me identifico e prendes a minha atenção nas pestanas do teu olhar. Explicas que Cesário foi um poeta que sofreu na pele o desprezo feminino. A mulher citadina pavoneava-se à frente dele, bela, distante, perfumada e inacessível. Ensinas que o referido senhor suspira por uma mulher de classe alta que passeia à sua frente, cheia de folhos, que o despreza por trabalhar numa loja de ferragens e não ter ‘sangue azul’ para estar ao seu lado. Também eu, um dia, há muito tempo, olhei para ti como a mulher de folhos… inalcançável… que flutuava sedutora à minha frente. Nunca acreditei que um dia te iria despir esses folhos. Nunca imaginei que um dia te poderia ter. Olho à minha volta e vejo outros meninos/homens que trocam sorrisos cúmplices, matreiros. Leio nos olhos deles o que um dia espelhei nos meus. Também tu, hoje, és para eles, a mulher de folhos que desejam. Ecoa o som da campainha, ouve-se um frenesim de cadeiras e mochilas. O meu coração volta a bater descompassado. Aproximo-me de ti, beijo-te levemente os lábios. Saio da sala contigo de mãos dadas. De dedos entrelaçados. Quero mostrar a estes meninos/homens que és minha. Que és a minha mulher de folhos.

  

 

Mulher Fantástica

por aspalavrasnuncatedirei, em 06.06.07

 

 Imagem Retirada da Internet

 

Hoje de manhã, no duche, decidi usar aquele gel de banho maravilhoso, que só uso em ocasiões especiais, e depois pensei «- Para quê? Tu não vais saber!» Seguidamente, passei pelo corpo o creme igual ao perfume que me deixa a pele macia (pele de bebé, como tu dizes) e que intensifica o aroma, e depois pensei «- Para quê? Tu não me vais tocar!» Vesti uma lingerie sexy… aquela… a tal… e depois pensei «- Para quê? Tu não a vais despir!» Vesti um vestido curto, de cetim, aquele que dizes que retira a concentração dos meus alunos, e pensei «- Para quê? Tu não mo vais tirar!» Calcei os sapatos agulha, altos, muito altos e… sorri. Contornei os meus olhos com o lápis, delineei os meus lábios com o batom. Coloquei perfume… uma borrifadela aqui, outra borrifadela ali, e depois pensei «- Para quê? Tu não me vais cheirar!» Passei a escova pelo meu longo cabelo, de madeixas louras, e depois pensei «- Para quê? Tu não o vais afagar!» Depois de todos estes “rituais de beleza” olhei para o espelho para ver o resultado final e pensei «- Para quê? Tu olhas-me mas não me vês!» Que desperdício!!! Virei as costas, para ir trabalhar, tinha dado meia dúzia de passos, quando o meu Anjo da Guarda me deu com uma das suas asas e obrigou-me a voltar atrás, e a ir ter comigo novamente ao espelho. Fui. Olhei-me. Primeiro, superficialmente, para tentar perceber o que estava mal, e o que é que o Anjo me queria dizer. Depois… a medo… olhei-me nos olhos e percebi… «-Para quê????» Para Mim!!!! Para Mim!!! Que sou uma mulher fantástica!!!

 

(Dedicado a todas as mulheres fantásticas que diariamente passam por aqui e me deixam o seu carinho)

 

 

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