Tudo o que não vivemos
Tenho saudades dolorosas de tudo aquilo que não vivi contigo, é estranho, supostamente deveria inflamar-me na nostalgia de tantos momentos mágicos partilhados a dois, mas o que rasga cada página da minha vida, e depois de tanto tempo, é a angústia de tudo aquilo que ficou por viver.
São coisas pequenas e simples que me assaltam no dia-a-dia, que me deixam vazia e despojada de mim, sem saber como te fazer parar de me doer, porque a morte das pessoas que amamos não equivale ao desaparecimento dos afetos e emoções.
Hoje amanheci mais cedo do que é habitual e fui caminhar à beira-mar. Dei um passeio daqueles que arrumam as gavetas da vida e purificam pensamentos em desalinho. Quando me apercebi, as minhas lágrimas salgadas uniam-se às ondas quando te imaginei a caminhar de mão dada comigo. Não imaginas as vezes que sonhei com isto: tu ao meu lado a partilhar gargalhadas cúmplices sempre que tropeçássemos no branco das conchas ou na melodia dos búzios; as mãos entrelaçadas nos dedos um do outro; tu a guiares-me rumo a um destino que se afigurava brilhante à nossa frente. E quando percebi que jamais iriamos deixar as nossas pegadas desenhados na maciez da areia molhada, senti como lâminas frias, a água nos pés, sem que me pudesse aquecer no calor do teu abraço e deixei-me então cair sobre as vagas, na esperança que este sofrimento fosse levado para um mar longínquo.
Saí da praia, fugindo da tua ausência ali, e fui tentar aquecer a alma bebendo o sol no chá de uma esplanada. Pedi ao empregado uma infusão de menta que surgiu minutos mais tarde (sem que ele próprio soubesse) acompanhado de imagens tuas. Apesar de não teres sido convidado, ali estavas tu, na cadeira ao meu lado como sempre te sonhei, trazias um livro para partilhar frases soltas, caneta para registar as palavras que dão origem a novas histórias e caderno de capa preta para colorir a dois com as metáforas que sempre nos invadiram na espontaneidade das conversas.
Eu sei que o véu do tempo irá desvanecer a memória de todos os momentos doces e especiais que vivemos, lentamente… o ponteiro dos dias encarregar-se-á de atenuar o brilho dos teus olhos faroleiros, o som da tua voz a entoar melodias ao meu ouvido, a suavidade das tuas mãos no desejo da minha pele, mas como apagar o vazio deixado no peito desabitado e a tristeza de tudo aquilo que não vivemos?
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Texto: Sandra Barbosa
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