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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Quero ser como tu

por aspalavrasnuncatedirei, em 03.06.16

mãe e filha.JPG

 

- Mamã, quando for grande quero ser como tu! - dizia eu pendurada no teu pescoço enquanto me abraçavas feliz e me pegavas ao colo fazendo-me rodopiar no ar. Trago na mais doce das lembranças os passeios que dava dentro dos teus sapatos de salto alto, metia os meus pés minúsculos dentro das tuas sandálias elegantes e caminhava desengonçada na cozinha para ouvir os saltos tilintarem nos mosaicos.

O tempo jamais apagará a imagem pateta do meu reflexo no espelho quando vestia os teus vestidos. Lembro-me especialmente de um branco com flores com vários tons de azul que iluminavam ainda mais os teus olhos cor de céu e que me enchiam de orgulho quando o vestias e te via, jovial e esbelta, ao portão da escola. Eu olhava para ti e sentia-me a mais sortuda das meninas, constatava sempre que eras a mais bonita das mães que ali aguardavam pelos filhos. À tua volta uma aura angelical, que ainda hoje te caracteriza, contagiava todos ao teu redor. Recordo o dito vestido a arrastar pelo chão, eu, muito pequenina, 5 ou 6 anos de gente, escondida na imensidão do linho, que a ti te assentava como uma luva, olhava para o meu reflexo e tentava encontrar alguma coisa que projetasse a tua beleza no meu reflexo em ponto pequeno.

Hoje, quando passo blush pelo rosto, são frequentes as vezes em que viajo no tempo e rememoro os momentos em que assaltava a tua prateleira de maquilhagem. Quantas vezes o meu rosto de menina-travessa se transformou em arlequim fora do carnaval? Quantos batons te estraguei? Quantas toalhas imaculadamente brancas eu sujei de negro para retirar o rímel dos olhos, na esperança vã que nunca descobrisses?

Ainda tenho guardada a memória das nossas noites de mimo, embrulhadas numa mantinha, dos serões de conversa animada, ou daqueles momentos em que chorava no teu colo a tristeza que às vezes me invadia.

Cresci com um desejo enorme de ser como tu, envaidecia-me sempre que alguém dizia que eramos parecidas, que tínhamos o mesmo sorriso, a mesma voz. Com o passar dos anos apercebi-me da sorte que era ser tua filha, ser educada por alguém com os teus valores, partilhar a vida com alguém tão especial. Reconheço em ti a doçura, a bondade, o espírito de trabalho, entrega, sacrifício, o altruísmo, que não reconheço em mais ninguém. Tento encontrar-te defeitos, mas não existem, quanto muito poderia dizer que és demasiado boa pessoa, que proteges carinhosamente, que acreditas excessivamente nos outros, que te sacrificas descomedidamente pelos que amas, mas serão isso defeitos?

Hoje também sou mãe e continuo a querer ser como tu. Ensina-me a ter as respostas certas nos momentos sombrios dos meus filhos, como fizeste comigo, aconselha-me as palavras sábias que iluminam os atalhos da vida, diz-me como transformar o meu peito num porto seguro, daqueles em que acolhemos a nossa prole quando naufragam nas escolhas da vida e é em nós que encontram a paz para ancorar. Revela-me o segredo dos teus abraços, que embalam e projetam com coragem, para os desafios diários a enfrentar. Ensina-me a ser melhor pessoa a cada dia, a ser amada pelos meus filhos, como tu és por mim.

 

 

……………………………………………………………………….

Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

 

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