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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Escondida na Concha

por aspalavrasnuncatedirei, em 21.05.15

perola[1].jpg

 

Eu vivia numa concha, escondida, acusas tu, protegida, defendo eu. Era uma concha cuja carapaça foi construída ao longo dos anos, dura, seca, sem brilho. Lá dentro criei as condições para viver confortável: fiz uma cama de nuvens, almofadei as lágrimas, desenvencilhei-me de todas as janelas para não deixar os sonhos antigos entrar. Eu estava tranquila na concha, nenhuma emoção avassaladora me alcançava os sentidos, mas também nenhum sofrimento dilacerante me rasgava a pele e, há muito, que tinha decidido não amar para não sofrer.

Um dia chegaste tu, explorador aventureiro, e não aceitaste que aquela concha estivesse vedada à tua entrada. No universo das aventuras a que habitualmente te entregavas, nenhuma porta se te fechou, nenhuma janela se te escondeu, nenhum véu toldou o teu pensamento. Intrigado sobre a identidade que aquele tesouro escondia, sentaste-te na areia e iniciaste o teu discurso de sedução. As palavras flutuavam da tua boca e entravam devagarinho dentro das fissuras marcadas pelo tempo. As tuas histórias vinham cheias de reis e rainhas, princesas e vilões e, no final, havia sempre um final feliz para compensar quem viveu infeliz. Trazias nos teus olhos o brilho dos sonhos que querias conquistar e no teu sorriso, havia a felicidade que só aos escolhidos é permitido alcançar.

Lentamente a minha concha começou a amolecer, tudo lá dentro (outrora confortável e seguro) parecia agora incomodativo e, apesar do meu corpo ainda se confinar àquele espaço, a minha alma estava a ganhar proporções gigantescas e gritava para sair dali. Devagarinho, pé ante pé comecei a conquistar o espaço exterior. Dei-te a mão timidamente porque as viagens são sempre mais prazerosas quando temos alguém para nos acompanhar. Hoje sei que jamais deveria ter saído da minha zona de conforto. Eu não precisava conhecer as noites enluaradas na varanda, nem o gosto das melhoras castas de vinho tinto. Eu não precisava descobrir as noites de verão, de janela aberta, com o vento a entrar e a arrepiar-me a pele, contrastando com o calor do teu ombro onde adormecia. Eu não precisava de sentir a magia do teu sorriso travesso que sempre me causou borboletas na barriga. Eu não precisava descobrir que o sal do teu corpo transpirado é mais apetitoso do que toda a água do mar onde sempre me escondi.

Mas um dia, e há sempre um dia, em que descobrimos que os nossos ídolos têm pés de barro, que o que os move não é a conquista do troféu, mas a luxúria da caça e que os fascina numa mulher são todas as vezes que ela diz não, quando eles anseiam pelo sim. Voltei para a concha onde já não me encaixo, à minha volta movem-se algas escuras num mar de lodo, os gastrópodes estão partidos e com fendas irrecuperáveis. Neste retrato que teço, acredita que não me vejo como uma pérola, não sou a mais especial das mulheres, não sou a mais bonita não tenho qualquer traço que me torne especial, sou apenas uma mulher como tantas outras, tenho as minhas vulnerabilidades, os meus sonhos. Mas sou inteira e honesta no meu amor, na minha dedicação aos outros, por isso a mágoa é tão pesada. Se não era para me fazeres voar, não me devias ter tirado os pés do chão.

 

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