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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Na cauda do teu piano

por aspalavrasnuncatedirei, em 15.04.16

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Aproximei-me lentamente para que não sentisses a minha presença. Mesmo antes de ver a expressão do teu rosto, percebi que não estavas bem. Só te entregas ao piano quando os teus dias são sombrios, quando a pressão no peito é tão forte porque lá dentro o coração ameaça explodir, é que purificas a alma na Moonlight Sonata de Beethoven. Naquele instante, os teus dedos, como varinhas mágicas, transferem para o teclado, todas as emoções que te habitam. Invejo-o, porque lhe tocas, são aquelas teclas pretas e brancas, maravilhosamente melodiosas, desumanamente frias, que recebem o calor da ponta dos teus dedos. São elas que acariciadas, gemem por ti.

Queria que me entregasses o teu medo, que depositasses em mim a tua raiva, a tua frustração, que encontrasses em mim o teu porto de abrigo, a tua alma conselheira. Mas não consegues, a tua alma é feita de pautas, de acordes, não de palavras e por isso, é sempre o piano que te recebe. Hoje decidi ganhar esta guerra fria e vou entrar na partitura que construíste à tua volta para te proteger. Vou entrar no teu mundo opaco e roubar ao piano o carinho que é meu.

Encosto o meu corpo ao teu em silêncio, fico imóvel… deixo que o calor do meu ventre te aqueça as costas. Inicialmente ignoras-me, estás demasiado cristalizado nos teus medos para te permitires sentir alguma sensação de conforto, mas eu não desisto e suavemente coloco as mãos sobre ti. Acaricio-te os ombros, tão tensos de vida, deixo que um fio imaginário se desprenda das minhas mãos e te faça uma transfusão de todo o meu amor. Começas a vacilar… aqui e ali uma nota ecoa fora do sítio… desço timidamente a minha boca ao teu pescoço para te arrepiar, provocando na música um som cada vez mais perturbado.

Subo com delicadeza para a cauda do piano, a camisa de noite sobe ligeiramente insinuando-te debaixo dela  o meu corpo que adivinhas nu. Lentamente… deito-me de barriga para cima lançando em súplica o meu amor ao céu, deixo-me cair para trás, entregando o meu corpo quente ao arrepio frio da madeira. O meu cabelo espalha-se docemente pelas teclas… a música para... os teus dedos repousam assustados e cansados em mim, agora a minha pele, que também conheces de cor, é o teu piano e o meu corpo é a partitura que desejas ler.

Compenetradamente, libertas-me do pedaço de cetim que trago vestido e que atiras para o lado, descobres a minha pele branca que contrasta com o negro do Steinway e admiras com um olhar penetrante cada pedaço de mim. A tua boca procura na minha o sopro de vida que lhe tem faltado para respirar, abraças-me em desespero e repousas a face no meu peito que reconheces como o templo que te pacifica. E é no momento em que te seguro no rosto para te fazer aportar nos meus olhos, que te esqueces da sombra dos dias e descobres o brilho faroleiro que te guia ao encontro do amor.

 

Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

Somos sempre menos na vida dos outros do que aquilo que imaginamos...

por aspalavrasnuncatedirei, em 10.04.16

 

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Hoje sonhei que tinha morrido num estúpido acidente de carro, estava a enviar uma mensagem ao meu marido "- Tira o frango do congelador" quando me despistei ribanceira abaixo.

 

O meu espírito, do lado de fora, assistia ao pânico das pessoas que se aglomeravam e ao aparato que se gerou à volta. Via o meu corpo ensanguentado dentro do carro e o sopro de vida a esvair-se de mim. A primeira coisa que me ocorreu foi "- Como é que eles vão viver sem mim?" e a minha alma desmaiou de aflição naquele instante.

 

Acordei 4 meses depois numa nuvem alcatifada, apressei-me a pedir autorização às hierarquias universais para vir cá abaixo (felizmente que no plano celeste existe menos burocracia) e vim à terra para visitar o sofrimento daqueles que me  amavam, mas... ninguém me tinha preparado para o que ia acontecer a seguir...

 

Trespassei as paredes da casa - já tinha visto isto num filme, e sempre tive vontade de o fazer - e vi o meu marido deitado no sofá a olhar para o telemóvel (desde quando é que tens um iphone 6?). Aproximei-me, já a padecer-me com a sua dor e vi-o… com uma camisa azul nova, barbeado, perfumado a cheirar a fresco, cabelo um pouco mais comprido, acho que tinha até um penteado novo. Lindo de morrer, como no dia em que o conheci. ESPEREM LÁ!!!!!! O QUE É QUE SE PASSA AQUI???? Este tipo está viúvo há 4 meses, não está vestido de luto, não tem um ar infeliz e está todo sorridente a enviar mensagens??? Como é que é possível? Estranho...

 

Aproximei-me para ler o que escrevia, possivelmente estaria a tratar dos negócios da quinta ou a conversar com as nossas filhas. Debrucei-me sobre ele e li...  O destinatário chamava-se "Chuchu"... CHUCHU"?!?!?!? Mas o que é isto?!?!?! O meu corpo ainda não arrefeceu e ele em vez de pensar que a vida não faz sentido sem mim, já está a convidar uma hortaliça para jantar????? 

 

Não quis acreditar no que via, já não tinha corpo para me doer, mas percebi, agora mais do que nunca, que as dores sempre foram de alma, levitei até ao primeiro andar para me pacificar com as minhas filhas que estariam certamente arrasadas com o meu desaparecimento tão prematuro.

 

Entrei pela porta do quarto, lá dentro ecoavam as gargalhadas das minhas meninas que frenéticas trocavam de roupa deixando tudo caótico à sua volta... - Meu Deus, como é que elas cresceram tanto em tão pouco tempo? A Sissi estava tão elegante naquele vestido preto e a Nucha ficava linda maquilhada. Oh não... outra vez não... mas o que é que aconteceu às minhas princesas?!?! Elas não sentem a minha falta??? Vão sair à noite?!?! Para onde? Com quem? O pai autorizou?

 

-  Sissi, despe imediatamente esse vestido porque ele é meu e custou-me uma fortuna!

 

- Nucha, vai lavar a cara e tira os saltos altos que não tens idade para isso!

 

A minha alma exausta... deambulou pela casa tentando encontrar resquícios meus por ali. Já não era o meu lar, era uma habitação onde a minha família morava...

 

Decidi visitar o escritório para confirmar se o caos se tinha instalado por lá também. Certamente que os meus colegas sentiam a minha falta. Pois é... agora não tinham quem resolvesse as asneiras que eles faziam. Quem trabalhava atualmente horas a mais no fim do dia? E aos fins de semana? E agora, quem respondia aos emails? Quem aturava os clientes chatos? Não me admirava nada que com o meu desaparecimento estivessem à beira da rotura. 

 

Ao chegar, reparei que se encontrava tudo como antes, tudinho! Estranhamente senti algum conforto, uma vez que ainda estava em estado de choque com o que vira em casa, mas ali, no local onde dei o meu sangue, suor e lágrimas durante 20 anos, estava tudo igual.

 

O diretor comercial continuava enrolado com a rececionista de decotes proeminentes, que por sua vez, permanecia proeminentemente decotada. O meu colega Américo lá estava afincadamente em frente ao computador... mas a ocupar o tempo no Facebook, a suspirar pelas vidas de mentira que via em cada perfil, para esquecer a ausência de alegria que subsistia na sua patética existência. A Isabel mantinha-se um polvo traiçoeiro, cujos tentáculos destilavam veneno, minando tudo e todos à sua volta. Portadora de uma língua viperina, com pernas de gazela numa minissaia ordinária, uma verdadeira cabra para as colegas, uma gata com cio atrás do tipo musculado dos recursos humanos, fazendo-se passar uma cadela fiel ao gestor financeiro, quando na verdade, anda armada em papagaio a vender informações sobre a nossa carteira de clientes. Irra!!!!! É muito bicho numa mulher só.

 

Olhei para o meu gabinete, aproximei-me lentamente... e vi que na minha secretária já não repousa a minha fotografia com a família nos Alpes, nem a foto do último jantar de Natal da empresa onde eu estava sorridente e feliz, na parede já não mora o meu diploma e na janela já secou, por falta de cuidado, a minha orquídea. Depositei a minha alma na cadeira, e morri novamente num despiste causado pelo abandono e desilusão e chorei, chorei, chorei como só uma alma em sofrimento sabe fazer.

 

E foi assim que acordei na minha cama... Lavada em lágrimas devido a um sonho sufocantemente real. Olhei para o lado, o Miguel dormia ainda com um leve sorriso (será que já anda  dar umas dentadas na Chuchu?)... fui ao quarto das miúdas e mantinham os rostos angelicais aos meus olhos de mãe. Fui tomar um duche e preparei-me para ir trabalhar.

 

Que sonho estranho... é esquisito descobrir que quando morres o mundo continua a girar sem a tua presença, que as pessoas que amas voltam a amar e que tu és apenas uma centelha divina que nasce, vive e morre. Não vale a pena sacrificares-te pelos outros, trabalhar até à exaustão, anulares os teus sonhos em nome da felicidade daqueles que achas que tens obrigação de proteger porque… somos sempre menos na vida dos outros do que aquilo que imaginamos...

 

 

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Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

Tão estranhos que nós somos

por aspalavrasnuncatedirei, em 05.04.16

 

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Saímos de casa com uma pontualidade britânica às 10:30 como sempre fazemos a cada manhã de domingo. Com movimentos mecânicos entramos no carro, sentas-te numa atitude machista ao volante, conduzes sempre que estamos os dois, mesmo que a viagem se faça no meu carro, eu já nem ligo, distraio-me com a companhia do rádio, mudando de estação emissora sempre que a melodia não me agrada.

 

Paras na pastelaria de sempre sem me perguntar se gostaria de me aventurar noutro espaço qualquer, sento-me na mesa do costume, virada para a rua habitual, só para me poder deixar aquecer pelo sol. De olhos vidrados vejo numa tela gasta de cinema a vida a passar diante dos meus olhos… conheço de cor todos os nossos rituais, sei com uma certeza dolorosamente absurda todos os movimentos que vamos fazer, todas as palavras que vamos dizer.

 

Vais pedir um café curto, em chávena fria, e um pastel de nata queimado, borrifado com canela. Pedes, como se eu não tivesse voz ou vontade própria, um chá de camomila para mim, desconhecendo que hoje em dia prefiro cidreira. Enquanto esperas, irás ler o jornal que saqueaste à mesa do lado. Começas a leitura pela página do desporto, saltitas pelos títulos da economia e vais ser interrompido pela vizinha do 5ºC que virá comprar pão, acompanhada pelo cão e tu vais aproveitar para brincar com ele. Enquanto as tuas mãos afagam o pelo do pastor alemão, recordo-me do tempo em que as tuas mãos tinham o poder de arrepiar a minha pele quando as sentia… Hoje, olho-as enrugadas, frias, distantes, incapazes de me provocar qualquer sensação. Subo o meu olhar das mãos aos olhos e não te reconheço… ou melhor, tens pouco do homem por quem um dia me apaixonei. Já não me fazes rir, talvez porque conheço as tuas piadas de cor e tu perdeste a capacidade de me surpreender com frases novas.

 

E quando os teus olhos regressam ao jornal, fito-te com um olhar longínquo e deixo-me vaguear tristemente. Tornámo-nos dois estranhos que coabitam no mesmo casulo. Tu sais de manhã para o consultório e vives uma felicidade novelesca com a tua secretária. Pensavas que eu não sabia? Sei, há muito que sei. Não consigo precisar quando o percebi, mas quando dei por isso há muito tempo que os teus beijos eram castos, os teus abraços eram fraternais e o meu corpo era invisível ao teu. Depois, foi só ver a forma como passaste a vestir roupas que são para homens com metade da tua idade, observar que gastas uma pequena fortuna em cremes antirrugas, que tudo à tua volta é anti age e que as horas extraordinárias que fazes a cada serão, se fazem acompanhar com o empenho da tua secretária.

 

Sabes o que é mais triste do que a traição? É a tua capacidade em me seres tão indiferente, é a minha frieza para não te sentir em mim, é o facto de seres uma vela apagada que há muito não ilumina a minha vida. Não me dói no corpo, nem na alma, muito menos na autoestima. O homem por quem me apaixonei aos 16 anos, que me fez mulher aos 18, com que me casei aos 21, o que me fez mãe aos 23 simplesmente já não existe, perdeu-se nesses caminhos empoeirados, tornou-se um adereço como qualquer outro lá de casa, e, fatalmente tornou-se cego à pessoa em que me transformei também.

 

Bebo um gole de chá que arrefeceu de desapontamento na chávena só para me ajudar a esquecer esta solidão a dois, para engolir esta insatisfação de ainda partilhar contigo os rituais de domingo.

 

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Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

 

Voltar atrás no tempo

por aspalavrasnuncatedirei, em 03.04.16

 

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Gostava de ter um relógio mágico que me permitisse retroceder os seus ponteiros em algumas situações da minha vida, não para alterar o que quer que fosse, pois o rumo que os meus dias tomaram não podia ter sido mais perfeito, mais harmonioso, mas porque gostava de poder sentir novamente algumas sensações.

 

Voltar atrás no tempo… para sentir o abraço o meu avô e encontrar-me no reflexo dos seus olhos inundados de lágrimas sempre que me via, passear naquela mota especial que ele tinha, com um banquinho atrás que eu achava que tinha sido lá colocada especialmente para mim.

 

Queria poder inverter as horas para dar a mão à minha mãe e ir com ela, vestida de bibe ao xadrezinho vermelho e branco, até ao infantário, pendurar-me no seu pescoço e dar-lhe beijos repenicados, pedir-lhe com voz de mimo que me viesse buscar depressa e sentir o aroma, que ainda hoje guardo, da sua pele que sempre me cheirou a Pink Lotion da embalagem cor-de-rosa.

 

Perder-me nos fios do tempo… para ser uma outra vez uma maria-rapaz, brincar em cima das árvores com os meus primos e vizinhos, andar em cima dos telhados no Alvorão, fugir dos ralhetes e enfrentá-los com gargalhadas atrevidas mas felizes.

 

Quem me dera tornar a vestir capa e batina e sentir os acordes a tilintar na minha alma provocados pelas serenatas nas escadas da Sé Velha de Coimbra, voltar a cansar-me a subir as belas Escadas Monumentais, saborear um café na esplanada do Trianon em Celas, passear com as amigas pela ancestralidade do Jardim Botânico, enquanto fazíamos planos para um futuro que nunca chegou, acordar ao som da Tuna de Medicina debaixo da minha janela e sentir borboletas na barriga ao som do “Donzela que sempre amarei”. Voltar a fazer promessas de amor eterno na Fonte dos Amores e sonhar com histórias de personagens com finais felizes.

 

Pudera eu passar novamente pela sensação maravilhosa de dar a minha primeira aula ao 10ºB em Pombal, o palpitar do coração a bater de forma descontrolada, as mãos geladas, a voz que teimava esconder-se nas profundezas assustadas do meu ser, mas acima de tudo, ver o olhar daqueles meninos e meninas, que foram os meus primeiros alunos e cujo nome ainda hoje sei de cor. Beber-lhes novamente os sorrisos doces que funcionavam como varinhas de condão no combate a todo o meu nervosismo. Mal eles sabem o tanto que me ensinaram sobre a professora que queria ser e um laço invisível e inquebrável de carinho e respeito ficou até hoje.

 

Viajar no tempo…até aquele dia de outono em que me vesti de branco, com vestido de princesa, protegida pelo véu dos sonhos e me senti a mais bonita das mulheres enquanto desfilava numa passadeira em direção ao “Para sempre…” e que afinal se revelou apenas no “Enquanto valer a pena”… caminhar com a certeza que a felicidade estava a meia dúzia de passos à minha frente e viver num conto de fadas enquanto não acordasse desse sono profundo.

 

Queria tanto, mas tanto, sentir novamente o meu corpo a transformar-se com os meus filhos a ganharem raízes dentro de mim… revisitar esse momento mágico em que os abracei pela primeira vez, em que a palavra “Mãe” me passou a definir, em que todo o universo que sou se resumia a dois anjos que se escapuliram do céu só para poderem atravessar o fio da eternidade e fazerem de mim a origem das suas vidas. Queria que o meu peito voltasse a ser a fonte do seu alimento, só para os poder olhar nos olhos e rezar baixinho, a quem quer que seja responsável pela felicidade das crianças, para que os protegesse, para que lhes desse colo, para que preparasse para eles um futuro risonho e cheio de amor.

 

Voltar atrás no tempo… até aquele fim de tarde em que os nossos caminhos se cruzaram, sem coincidências, porque não acredito na sua existência, contra todas as probabilidades…ali estava eu…ali estavas tu e o que senti também queria recuá-lo no tempo, aquele momento mágico em que me olhaste nos olhos e me senti nua…. aquele momento ilusionista em que percebi que depois de ti, nunca mais nada na minha vida seria igual.

 

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Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

 

Terrorismo emocional

por aspalavrasnuncatedirei, em 01.04.16

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 Se há coisas que amo nesta vida, uma delas é o terrorismo emocional que pulsa à nossa volta sempre que estamos juntos. Gosto da sensação de te sentir dolorosamente perto, perceber que o mundo lá fora está maravilhosamente distante, que vivemos esta paixão em silêncio, que existimos na sombra, sem jamais darmos voz às emoções que ecoam em nós, ou aos sentimentos que nos habitam sem licença ou autorização.

Enquanto as nossas conversas fluem, adoro sentir a minha boca a seduzir-te sem que lhe possas surripiar um beijo, não fazes a menor ideia do que me diverte passar o batom de cereja nos lábios, humedecê-los lentamente com a língua, só para ouvir a tua respiração alterar, só para te ver engolir em seco...

Apraz-me passar os dedos pelo cabelo… devagar… sem pressa… entrelaçá-los nos meus caracóis e sentir as tuas mãos imóveis, ansiosamente presas a cada um dos meus fios, num desejo aflito de o afagares, de o deixares em desalinho, de te deixares envolver pelo seu toque acetinado, macio e perfumado.

Sabes, há momentos em que brinco com gargantilha que repousa no meu pescoço só para te aprisionar ao “V” meu decote, para que te detenhas na minha pele branca, para que imagines a temperatura do meu corpo, o aroma adocicado que dele se desprende, para que te invada um desejo irrefreável de desapertar cada botão da minha camisa.

E quando te olho nos olhos, utilizo a minha arma mais letal, a transparência, o brilho do meu olhar que jamais desvio quando se encontra com o teu. Deixo que penetres no fundo dos meus sentidos e desvendes tudo o que sinto, tudo o que calo, tudo o que anseio. Nesse instante absorves-me para o interior da tua alma, e permites também que te escute sem nada murmurares, que te sinta sem te tocar, que te entenda sem nada verbalizares. Cada vez mais próximos no jogo da paixão, mas terrivelmente longe do razoável, consinto que este terrorismo emocional se acenda, se ateie, se inflame, se abrase e que no plano dos sonhos os nossos corpos ardam para se consumirem neste desejo, para se cumprirem neste amor.

 

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Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

No amor, como na vida, são precisos dois para dançar o tango

por aspalavrasnuncatedirei, em 26.03.16

 

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O tango é a dança mais bonita e sensual que conheço, fascina-me a simbiose dos corpos dos bailarinos que se movem a um ritmo intenso, apaixonado, avassalador. Deslumbra-me a sensibilidade visível nos seus sentidos, a expressão sofrida dos seus rostos na medida em que o tango é um pensamento triste que se pode dançar.

No amor, como na vida, são precisos dois para dançar o tango, quando o amor surge traz com ele uma história nova para viver, sorrisos cúmplices para partilhar e é impossível ficar indiferente às sensações despertadas, ao arrepio da pele provocada pelos desejos, ao bater descompassado do coração, aos sonhos que se querem viver a dois e tornar reais. Mas no amor, como no tango, são precisas duas pessoas com vontade de tornar aquele relacionamento perfeito, há toda uma entrega à música, ao ritmo, à melodia da vida. Há uma necessidade urgente de amar o outro respeitando-o na sua essência, naquilo que tem para acrescentar à nossa vida e naquilo que vai levar de nós para o seu âmago.

Não adianta um impor ao outro o seu estilo, é um erro crasso cada bailarino dançar na direção que escolheu arrastando a contra vontade o seu par, é tremendamente egoísta fazer o parceiro dançar apenas ao ritmo do seu compasso, porque a harmonia nasce quando se respeita a cadência do outro.

Não chega um dos amantes amar demais, amar pelos dois, não é suficiente que apenas uma pessoa se esforce unilateralmente para que aquela relação dê certo, para que aquela dança flua no soalho brilhante e os corpos flutuem ao ritmo da paixão.

No amor, como no tango, não há movimentos perfeitos, não há felicidade sem esforço, sem dedicação, sem determinação ou empenho, mas quando os bailarinos decidem que querem fazer a diferença não há nada que os detenha, não há obstáculos intransponíveis, não há homem ou mulher que impeça que a dança da vida se paute em direção à linha do horizonte.

 

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Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: retirada da Internet

És tu que me susténs

por aspalavrasnuncatedirei, em 20.03.16

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És tu que me susténs… ainda que não o saibas… ou ainda que isso seja invisível aos olhos do mundo.

Por isso… preciso de ti… por nenhuma razão em especial, apenas por tudo, inspirada por nada. Sustém-me esse sorriso maroto, que se te acende em rastilho do peito ao rosto, num relâmpago de amor que me ilumina os dias. Quero encontrar-me no brilho dos teus olhos faroleiros que me fazem rumar ao cais onde te escondes, para te desvendar nos mistérios que sei ainda que estão por descobrir.

São os teus braços que me envolvem quando o peso dos dias me faz vergar à tristeza, à fadiga, ao desapontamento dos sonhos e é no teu abraço que encontro o berço que me embala a coragem para voltar a acreditar na primavera dos dias.

Preciso de ti… para poder deitar a minha cabeça no teu peito e ouvir o tic tac de um coração que trabalha com a precisão de um relógio suíço. Careço de uma necessidade urgente de te ouvir gemer baixinho o meu nome, em doces ecos surdos de amor. Sonho em adormecer no teu colo e repousar em ti este permanente cansaço que de forma alquímica transformas em energia que vibra de felicidade.

És tu que me susténs… porque a minha alma já não me pertence, abandonou-me há muito e habita descaradamente na tua. Por isso, preciso que te libertes de todos os medos e dúvidas, que te deites ao meu lado, que me afagues a alma de forma carinhosa e protetora, que digas que vieste para ficar e não me vais deixar sozinha a naufragar em vagas de solidão e incerteza. E amanhã, quando eu acordar… preciso que estejas exatamente no mesmo sítio.

És tu que me susténs… ainda que jamais o saibas… ou ainda que isso seja indiferente aos olhos do mundo.

 

Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

Adoro amanhecer-me contigo

por aspalavrasnuncatedirei, em 14.03.16

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Despertar de janela aberta onde dança harmoniosamente o espanta espíritos, com vista para o pôr-do-sol alaranjado ao fundo, onde a meio de um campo de girassóis, respiram duas chaminés de uma fábrica há muito extinta, mas nós continuamos a olhar para ela como se fumegasse, só porque sim, só porque torna o cenário idílico, porque nas nossas histórias imaginamos padeiros barrigudos e enfarinhados no nariz, a cozer pão quentinho pela madrugada especialmente para nós.

Sei que o despertador irá ecoar nos cantos e recantos do quarto dentro de alguns minutos, vai levar-te para longe de mim em mais um dia de trabalho, mas antes disso, encarregar-te-ás dessa tarefa hercúlea de me tirar da cama, de me despertar da melhor forma que sabes, para que o meu dia comece feliz.

Abro os olhos para te admirar… não deixo de pensar na sorte que tenho em te ter aqui deitado ao meu lado, gosto tanto de te ver dormir, o teu ar sereno a beber cada segundo de descanso, porque sabe que esses momentos são tão escassos e preciosos.

Respiro-te para me encher de vida. Beijo imaginariamente a tua pele macia para não te acordar, assim como o teu corpo nu, deitado quentinho ao meu lado, esse corpo que eu tanto amo e desejo.

E volto a fechar os olhos só para poder ser despertada por ti. É tão suave o acordar ao teu lado… começo por sentir a tua boca nos meus olhos, beijos meiguinhos dados por lábios ensonados também, que se abrem só para dizer baixinho «- Acorda querida». Eu, para prolongar este doce momento, continuo a fingir que ainda durmo para que os teus mimos não se detenham. Tu, ou porque finges que não percebes e entras no meu jogo, ou porque adoras a tarefa diária de me tirar do mundo dos sonhos de forma prazerosa, continuas essa dança melada ao meu redor.

Ao meu ouvido a tua voz insiste «- Vamos chegar atrasados dorminhoca» e eu começo a ronronar cheia de mimo «- Só mais um bocadinho». É neste momento que a tua barba se une em complot com as minhas cócegas e não me dão tréguas. Sinto o teu corpo a esconder-se debaixo do édredon e sou atacada por uma avalanche de beijos, suaves mordidelas, barba de dois dias ainda por desfazer e as tuas mãos-travessas na minha barriga. Dobro o riso em gargalhadas bem-dispostas, contorço-me de felicidade debaixo da alvura dos lençóis e escondo-me contigo neste ninho de amor.

O que acontece a seguir pouco importa: se fazemos a vontade aos corpos e aos sentidos e nos amamos, se damos voz à responsabilidade e nos arrastamos para o chuveiro para ir trabalhar, só interessa que os nossos dias começam assim, com o pôr-do-sol ao fundo, as duas chaminés a fumegar e a nossa vida a dois, a despertar para mais um dia de viagem lado a lado.

Adoro amanhecer-me contigo!

 

Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

Tanto para te dizer e as palavras a morrerem-me em silêncios

por aspalavrasnuncatedirei, em 10.02.16

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Quando penso que entre nós já foi tudo dito, fico sempre com a sensação estranha que ainda tenho tanto para te dizer…

Eu sei que nos momentos certos te confessei todo o meu amor, nunca me poupei a palavras, a manifestações de afeto, acima de tudo preocupei-me que as minhas ações estivessem sempre em sintonia com tudo aquilo que disse e sim... amei-te muito...

Nos dias cinzentos, quando entre nós se instalaram os estilhaços que viriam a quebrar-nos, raramente me refugiei no silêncio, nesses momentos também te disse onde me doía a voz, onde sangrava o coração, onde caía cada uma das minhas lágrimas.

Mas nunca te disse que passado tanto tempo continuo a beber café na nossa esplanada favorita e a ver o teu sorriso de menino (aquele, por quem um dia me apaixonei) sentado à minha frente, de mão dada comigo, da mesma forma que escondo que se mantêm vivas pequenas memórias tuas, pequenos apontamentos nossos. Recordo a tua boa disposição quando me acordavas de manhã, a forma como te movias pela cozinha enquanto me preparavas o pequeno-almoço, a maneira metódica como organizas a tua agenda diária, como escolhes a roupa, como fazes o nó da gravata e até, como engravatado e de camisa branca, engraxas os sapatos.

Nunca te disse mas mantenho viva em mim a alegria de te ver abrir a porta e entrar em casa, as miúdas correrem na tua direção, o pastor alemão saltar com as patas no teu colo, a gata a ronronar em círculos pelas tuas pernas e, principalmente, a tua boca a caminhar na minha direção, acompanhada dos braços que me envolviam docemente.

À noite, quando me deito ainda te acompanho imaginariamente em todos os rituais até chegares à cama e continuou a adormecer em concha aninhada em ti. Sabes, o tempo não apagou as linhas do teu corpo que conheço de cor, ainda sinto o toque da tua mão no meu cabelo para me adormeceres…ainda sinto a tua mão a deslizar sobre o meu corpo para me acordares…

Tanto que se disse, tanto que ficou por dizer... mas nunca foram precisas palavras entre nós para comunicarmos e, onde quer que estejas, só tu sabes aquilo que calo.

Almas destinadas...unem-se no momento certo...

por aspalavrasnuncatedirei, em 03.02.16

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Depois de arderem nas labaredas de uma paixão avassaladora que lhes consumiu primeiro a carne, depois o amor e mais tarde os sonhos até à exaustão, seguiu-se uma fase estranha e conturbada, alimentada por dúvidas, o que os fez decidir que o melhor para as suas vidas era separarem-se. Ela seguiu a estrada à esquerda com os olhos postos na linha do horizonte, ele optou pelo caminho da direita e não olhou para trás. Esqueceram-se de um pormenor importantíssimo: é que o mundo é redondo e no fim dos seus trilhos, cruzaram-se novamente.

Pelo meio, alguns anos a separá-los, cada um deles conheceu novas pessoas, voltaram a apaixonar-se, a jurar que era para sempre, mas no véu do tempo a perenidade do romance esfumava-se.

Encontraram-se novamente quando se desencontraram da vida, quando tudo à volta deles parecia ruir. Ela saiu disparada do trabalho não aguentando mais a pressão, não suportando mais o chefe, não tolerando mais a incompetência daqueles com quem trabalhava. Ele saiu porta fora de mais uma relação vazia, farto de ciúmes, de birras e de lágrimas sem sentido. Cansada, encaminhou-se para a ponte, gostava de ver os barcos a passar, imaginar a felicidade daqueles que chegavam e as inseguranças daqueles que partiam. Ele gostava de ver as luzes projetadas no rio e ver os seios saltitantes das meninas que corriam por ali.

Sem que nada os tivesse preparado…os seus olhos tropeçaram um no outro, já a ponte estava a meio, quando lhes era impossível dar um atrás para fugir ao destino. E nesse instante a magia aconteceu: as gaivotas calaram o seu canto, os barcos silenciaram o seu apito, os carros desligaram os motores e as meninas que corriam ficaram imóveis, a água do rio pacificou o seu curso. Só a melodia dos corações assustados os envolveu, só o eco dos tempos em que foram felizes se fez ouvir, só o amor que um dia sentiram gritou mais alto que tudo na vida naquele momentol.

Aproximaram-se lentamente… ficaram a ler nos olhos um do outro, toda a felicidade sentida naquele momento, o brilho há tanto tempo perdido começava agora a despontar. Ele, para ter a certeza que não estava a sonhar, passou as mãos pelo seu cabelo negro tomando-lhe o acetinado dos caracóis. Ela fechou os olhos para se equilibrar e não desfalecer naquele afago. Sentindo-a trémula, abraçou-a tremendo também. Naquele instante perceberam o motivo de todas as relações falhadas, todos os sonhos desiludidos, toda a procura que os trouxera até aquela ponte. O motivo era simples: quando duas almas estão destinadas a ficarem juntas, o tempo encarrega-se se as unir no momento certo.

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