Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008
Ensino em Portugal - Visto Pelos Pais

 

 

A minha caixa de correio electrónico é diariamente entupida por e-mails relacionados com as polémicas da educação. Esta carta de uma Encarregada de Educação dirigida à Ministra foi sem dívida o melhor que li. Desconheço a autoria, mas está genial.

 

Colegas: que vos faça rir.

Pais: que vos faça reflectir…

 

Ema. Sra. Ministra: 

1. Logo depois de ter lido aqueles documentos sobre a avaliação dos professores, pensei como lhe deveria agradecer, Srª Ministra. Afinal, aquelas horas passadas diariamente junto do meu filho a verificar se os cadernos e as fichas estavam bem organizados, a preparar a mochila e as matérias a estudar para o dia seguinte, a folhear a caderneta escolar, a analisar e a assinar os trabalhos e os testes realizados nas muitas disciplinas, a curar a inflamação de uma garganta dorida pela voz de comando 'Vai estudar!' ou pela frase insistentemente repetida, de 2ª a 6ª feira: 'Despacha-te, ainda chegas atrasado!' ou o incómodo e o tempo perdido para o levar diariamente à Escola, percorrendo, mais cedo do que seria necessário, um caminho contrário àquele que me conduziria ao meu emprego, tinham finalmente, os seus dias contados. Doravante, essa responsabilidade passaria para a Escola e, individualmente, para cada um dos seus professores. Finalmente, poderei ir ao cinema, dar dois dedos de conversa no Café do Sr. Artur, trocar umas receitinhas com a minha vizinha (está entrevadinha, coitadinha!) ou acomodar-me deliciosamente no sofá da sala a ver a minha telenovela brasileira preferida.

2. O rapaz ainda me alertou para os efeitos das faltas o conduzirem à realização de uma prova de recuperação. Fiz contas e encolhi os ombros - poupo gasóleo e muitos minutos de caminho, de tráfego e de ajuntamentos. Afinal, ele até é esperto e, se calhar, na internet, encontra alguns trabalhos ou testes já feitos... Sempre pode fazer 'copy - paste'...

Efectivamente, as provas de recuperação parecem-me a melhor solução para acabar com a minha asfixia matinal e vespertina. Ontem, a minha vizinha da frente, que tem dois garotos na escola do meu, disse-me que, se ele continuar a faltar, o vêm buscar a casa, e que, no próximo ano lectivo, os professores vão tomar conta deles depois das aulas.

3. Oiro sobre azul. Obrigada, Srª Ministra. A Senhora é que percebe desta coisa de ser mãe! A Senhora desculpe a minha ousadia, mas será que também não seria possível fazer uma lei para os miúdos poderem ficar a dormir na escola? Bastava mandar retirar as mesas e cadeiras das salas de aula e substituí-las por beliches, à noite. De manhã, era só desmontar e voltar a arrumar. Têm bar, cantina e até duche. Com jeito, eles ainda aprendiam alguma coisinha sobre tarefas domésticas, porque, em casa, não os podemos obrigar a fazer nada ou somos acusados de exploradores do trabalho infantil com a ameaça dos putos ainda poderem apresentar queixa junto das autoridades policiais. Ao Sábado, Srª Ministra, podiam ocupá-los com actividades desportivas ou de grupo, teatro, catequese, escuteiros, defesa pessoal...

4. O ideal mesmo era que os pudéssemos ir buscar ao Domingo, só para não se esquecerem dos rostos familiares. O meu medo, Srª Ministra é aquela ideia que a minha vizinha Sandrinha, aquela dos três garotos, comentava hoje comigo. Dizia-me que a Senhora Ministra quer criar o ensino doméstico. Eu acho que ela deve ter ouvido mal ou então confundiu o jornal da SIC com aquele programa da troca de casais do canal 24. Eu acho que isso não vinga em Portugal, porque não temos a extensão de uma América do Norte ou de uma Austrália e, por outro lado, tinha que comprar e equipar os VEI (veículos de educação itinerante), o que iria agravar mais o deficit das contas públicas e o insucesso dos nossos miúdos. Foi isso eu disse à Sandrinha. Acho que ela deve estar enganada. Logo agora, que podemos respirar de alívio porque não temos que nos preocupar com a escola dos garotos, essa ideia vinha destruir tudo, porque os obrigava a ficar em casa para receberem os VEI e aos pais ainda iria ser exigido algum acompanhamento.

5. A Senhora faça aquilo que decidiu e não oiça o que os inimigos dos pais e das mães lhe tentam dizer (já agora, lembre-se da minha sugestãozita!). Assim, os professores, com medo da sua própria avaliação, passam a dar boas notas e a passar todos os miúdos e, desta forma, o nosso país varre o lixo para debaixo do tapete, porque é muito feio e incomodativo mostrarmos, lá fora, que somos menos capacitados que os nossos 'hermanos' europeus.

Já agora acrescento: obrigado pelas aulas de substituição ... graças a elas o meu filho não sabe o que é brincar ao ar livre, correr, transpirar, cair, conviver... a indisciplina saiu dos recreios para as salas de aula, e por isso mesmo agora até levo o jantar ao quarto do meu filhote..

Uma mãe e encarregada de educação agradecida

 



published by aspalavrasnuncatedirei às 16:10
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9 comentários:
De Pankas a 21 de Outubro de 2008 às 13:50
A carta está brutal... Linda... Fantástica... Espero que muitos encarregados de educação leiam essa carta...

Beijinhos


De aspalavrasnuncatedirei a 21 de Outubro de 2008 às 15:46
Olá Pankas.
Devo confessar que também gostei da carta e, com ou sem ironia, este é o espelho do ensino em Portugal.
Beijinhos.


De Dina a 23 de Outubro de 2008 às 21:36
Ora ai está uma carta com duas vertentes.....por um lado faz nos rir pela maneira como ela foi redigida ..por outro faz nos refletir um pouco da realidade do nosso ensino
Beijocas garndes


De aspalavrasnuncatedirei a 24 de Outubro de 2008 às 18:26
Olá Dina!
Obrigada pela tua presença aqui, és mesmo uma das Mulheres Fantásticas que tenho o prazer de ter no meu blog.
Beijinhos.


De Paula a 3 de Novembro de 2008 às 19:57
A Senhora Ministra não pode criar o ensino doméstico porque ele já existe!

A maior parte dos pais mandam os filhos para a escola sem saberem que têm o direito de os ensinar em casa. Em Portugal, tal como em vários outros países, o ensino doméstico é legal. A lei portuguesa define o ensino doméstico como "aquele que é leccionado no domicílio de aluno, por um familiar ou por pessoa que com ele habite."


De aspalavrasnuncatedirei a 3 de Novembro de 2008 às 20:34
Olá Paula.
Se pudéssemos ensinar as nossas crianças em casa teríamos alunos com melhor aproveitamento e professores mais felizes.


De Maria Santos a 29 de Setembro de 2009 às 20:11
Ola a todos
Esta carta esta o maximo. Quero desde ja dizer que o meu teclado nao tem acentos, por isso nao vou escrever um Portugues muito correcto, peco desculpa.

Esta carta mostra bem o ridiculo das tentativas de reforma da educacao em Portugal, e o mais preocupante para mim e que parecem estar a querer seguir o caminho do modelo americano, que teoricamente funciona. Acontece que vivo ha 5 anos nos USA, vim de Portugal com 3 garotos de 16;14 e 8 anos, e dsecobri depois por ca que o sistema de ensino parecia funcionar, mas e apenas uma ilusao.

Passo a explicar: imaginemos um miudo que vai para o secundario( aqui so se vai para o liceu no 9 ano), e obviamente comeca por ter ingles I, matematica I, e por ai fora. Ate aqui nada de estranho, certo? Pois e mas acontece que e permitido a este menino continuar a ter ingles I, mat. I, e etc.. ate ao 12 ano e pior ainda graduar-se e ir para a Universidade (ate com bolsa de estudo), tendo adquirido durante todo o tempo do liceu o mesmo nivel de conhecimentos que e exigido aos meninos do ciclo preparatorio em Portugal.

Por isso meus caros conterraneos, nao desanimem quando sao publicadas as noticias alarmantes das baixas notas dos exames nacionais.

Na minha opiniao nao ha reforma que sobreviva a endemica falta de dinheiro e recursos das escolas. Quer seguir modelos Sr. Primeiro Monistro? Entao talvez deva comecar por fazer o que se faz por aqui , em que o dinheiro dos impostos sobre as casas (que e alto) fica todinho na vila ou na cidade e vai integralmente para sustentar as escolas. E que fazer omeletes sem ovos nao da grande resultado.

Um abraco e fiquem bem

Maria




De sandra correia a 5 de Janeiro de 2010 às 16:25
Ora boa tarde a todos,após uma longa pesquisa na internet sobre ensino domestico em portugal, fiquei tão ou mais baralhada que antes, após pedidos de informaçºao para o ministério da educação e envio de emails para a DREL ainda continuo a espera de obter resposta pois, segundo toda a informaçao que fui obtendo apenas 1 pessoa está apta a informar pais ou outros ,sobre o ensino domestico em portugal,INACREDITÀVEL.. mas é a mais dura realidade, espera-se 1 mes por uma resposta da drel a um email porque apesar de existir uma equipa a trabalhar para dar informaçoes sobre o assunto apenas 1 está abilitada a responder e dar a informaçao necessaria.Modernices no sitema de ensino que so vem, fazer futuros adultos com cada vez menos formaçao,obrigado a todos


De maria rafael a 28 de Dezembro de 2011 às 22:38
Boa noite a todos! Respondendo especialmente à Sandra, posso-lhe dizer que o ensino doméstico é legal em Portugal. O meu filho vai no próximo ano lectivo para o 1º ano do ensino básico em regime de ensino doméstico em Sintra. Será mesmo um espaço com professor/a e com outros meninos. A pedagogia base é a waldorf. Eu tenho sempre que o inscrever numa escola primária e depois assinar um papel em como fico responsável pela educação do meu filho. O lugar dele nunca pode ser ocupado por outra criança e é nessa escola que ele irá fazer o exame no 4º ano. Também estou ainda a conhecer melhor todo este processo. Obrigada!


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