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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Uma Aula Diferente

por aspalavrasnuncatedirei, em 13.08.08

Imagem Retirada da Internet

 

Preparo-me para a apresentação da sessão de leitura no EP. O que é que vou vestir? Como me dizia o António, que já anda nestas lides há mais tempo «-Tens que ir lá para dentro feia!». Mas que antítese… As mulheres passam a vida a tentar embelezar-se, e eu tenho que “enfeiar-me”.Decido vestir calças, mas que calças? Ou são justas e notam-se as curvas, ou são bermudas e vêem-se as pernas. E no andar de cima? Os tops são muito justos, as camisas um pouco transparentes, as camisolas decotadas… Era mais fácil se estivéssemos no Inverno, umas calças de ganga e uma gola alta resolviam o problema. Decido-me por umas calças pretas, um top branco e uma camisa branca por cima. Apanho os caracóis com um elástico, não me pinto, não me perfumo, não uso adereços. Saio de casa e penso no projecto que vou desenvolver. Estaciono o carro no atrium do EP. Invade-me uma sensação de pânico que tenho dificuldade em controlar, estou tão nervosa… Combinei encontrar-me com a Dra. Teresa mais cedo para podermos conversar sobre as sessões de leitura e sobre os reclusos. Saio então do carro, dirijo-me ao portão e toco à campainha. Só eu sei o quanto o meu coração bate, só eu sei a importância que este trabalho tem para mim, o que ele significa. Surge um guarda que me encaminha para o detector de metais. O alarme ecoa e eu sinto-me do tamanho de uma formiga, ou pior, sinto-me uma criminosa que acabou de ser apanhada em flagrante. O meu coração bate descompassado, sou revistada e percebemos que o que accionou o alarme foi o cinto das minhas calças. A Dra. Isabel tranquiliza-me com a sua expressão, tem um sorriso terno e deixo-me acalmar pela doçura dos seus olhos. Falamos superficialmente sobre os reclusos que estão na sessão de leitura, nunca quis saber o que os levou a estar aqui, o que fizeram, porque o fizeram. Não é esse o meu papel, não é para isso que ali estou. «-Vamos passar à zona prisional», oiço-a dizer, e o meu coração, que já tinha sossegado, sobressalta-se novamente. Começa então a minha peregrinação por um edifício austero, onde a cada 5 metros há um portão de ferro enorme, há uma chave gigantesca que a abre. Cumprimento os guardas a que vou sendo apresentada. É então que contacto com um cenário para o qual não me havia preparado. Ao entrar na zona prisional começo a ouvir gritos, assobios, as grades a abanar. Dezenas de homens “enjaulados”, como animais ferozes, que não ficaram indiferentes à minha entrada naquele espaço. Faço de conta que não oiço, sigo em frente, não baixo a cabeça, mas também não olho ninguém nos olhos e lá vou eu escoltada até à biblioteca. Fui extraordinariamente bem recebida pelos reclusos que estão a trabalhar na biblioteca. São pessoas simpáticas, educadas, um deles até brinca comigo e diz que fui muito bem acolhida, que tive uma recepção muito calorosa por parte dos «residentes». Lentamente a sala começa a encher, as pessoas olham para mim e trocam sorrisos cúmplices (não é todos os dias que entra ali uma jovem professora loura…). Never smile before Christmast, aprendi este ditado relativamente às Escolas e tenho obrigatoriamente que o usar aqui, não me posso esquecer onde estou. Começo serena, mas segura, por me apresentar, explico que não estou ali na qualidade de professora mas sim de dinamizadora de leitura. Mostro-lhes as capas dos livros para servir de motivação, deixo-os tactear os livros. Apelo para a importância do livro e da leitura. Daqueles homens… conheço dois. Um é o Miguel, morava perto da casa da minha mãe, na mesma rua. Filho de uma família complicada, pais alcoólicos, irmã ligada a drogas e a prostituição, miséria, atrás de miséria. O outro, o André foi meu colega na infância. Lembro-me dele nas piscinas, nos saltos para a água com uma agilidade incrível. Lembro-me perfeitamente: sempre muito bem-disposto, divertido. Há anos que o não via… nunca pensei encontrá-lo ali. Não fiz qualquer menção de o reconhecido, (o que me deixou, e ainda deixa, cheia de remorsos). Não sei que pessoa é ele hoje e não lhe posso atribuir a confiança que um dia teve. O tempo e as próximas sessões me ensinarão como lidar com ele. Não quero ser, ou parecer snob, não quero armar-me em pessoa superior só porque tive uma educação que ele não teve, tive oportunidades que ele não conheceu, fiz escolhas que ele não fez… mas sinceramente… custou-me ficar em silêncio. A sessão vai fluindo, vamos analisando os textos, vão-se ouvindo opiniões, vão-se trocando experiências de leitura. No final, sinto que o balanço é muito positivo, gostaram do projecto que lhes apresentei e ao saírem despedem-se com um «- Até amanhã» se vão voltar, é porque lhes interessou. 
 

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