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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Anjos na Terra

por aspalavrasnuncatedirei, em 14.04.07

 

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                                                                                     Imagem retirada da Internet

 

Chego ao infantário e procuro, no meio daqueles pequenos duendes irrequietos, o meu Anjo de bibe ao xadrez. Observo-o a brincar no seu mundo de Alice no País das Maravilhas, onde cabem todos os príncipes e princesas, dragões e fadas. Rezo baixinho «Meu Deus, não o deixes crescer tão depressa. Não vês que assim as suas asas vão ganhar penas, e não tarda, vai voar para fora do meu ninho?» Afasto estes pensamentos parvos e idiotas e tento substituí-los por alguns de jeito. «Ainda bem que está a crescer – forte, saudável e liiiiiiiiiindo de morrer!» Rapidamente sou chamada de regresso à Terra porque o meu Anjo já me encontrou e enrola-se às minhas pernas como uma enguia, esticando-se para me roubar um beijo. Agarro-o ao colo. Abraço-o. Sinto aquele cheirinho, que é só dele, e que resulta de uma miscelânea de cheiros, que passam pelo perfume atrás das orelhas, o aroma do champô, do creme das bochechas e da transpiração de quem não pára um segundo quieto. O meu Anjo não tem vestes brancas, celestiais. Chega sempre ao pé de mim preto como o carvão de um mineiro, parece uma pequena vítima de trabalhos forçados, impostos pelos guaches, plasticinas, pelas Joaninhas de chocolate, pelos empurrões dos amigos. Oiço a sua voz, melada pelos bigodes do leite com chocolate, dizer «-És a mãe mais linda da minha Escola», e agora sou eu que ganho asas e voo com ele no seu mundo de faz de conta. Levo-o para casa e aí, o meu pequeno Anjo transforma-se num diabrete. Começam as birras: Não vou tomar banho, já tomei ontem; não vou arrumar o quarto estou muito ocupado, não fui eu que fiz chichi nas pantufas do mano foi o meu cãozinho, não atirei o carrinho pela janela do terceiro andar, foi ele que voou sozinho, não gosto dessa sopa, só gosto de canja; não sei quem é que comeu os chocolates que estavam na caixinha de surpresas; não vou dormir, ainda me falta brincar mais um bocadinho. E no final do dia, quando finalmente consigo colocar aquele Anjo numa alcofa de nuvens, sinto o céu nos meus braços quando o oiço dizer «Mãe, amúúú-te’!»

 

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