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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Incoerência dos Programas Curriculares

por aspalavrasnuncatedirei, em 11.04.07

 

                                                                 Imagem: Escola Secundária de Alverca

 

Este ano lectivo fui colocada na Escola Secundária Gago Coutinho e foram-me atribuídas, para leccionar Língua Portuguesa, duas turmas de CEF (Curso de Educação e Formação), uma, de Práticas Administrativas e outra de Electricista de Instalações. Estes cursos destinam-se a alunos em situação de abandono escolar, ou aos que já tinham abandonado a Escola. Supostamente, têm programas mais acessíveis que lhes permitirá terminar a escolaridade obrigatória com sucesso. Concordo com a primeira parte da questão, é importante trazer novamente os alunos às Escolas e formá-los, mas é preciso adaptar os programas curriculares à realidade destes miúdos e aqui é que está o busílis.

Lá diz o ditado «Só quem está no convento é que sabe o que lá vai dentro», que é como quem diz, só quem está a trabalhar com estes alunos, no terreno, dia após dia é que sente as dificuldades com que se depara diariamente, e é que conhece as deficiências deste novo sistema de ensino.

Quando iniciei o meu trabalho reparei que iria leccionar a estas turmas um módulo sobre texto dramático, do qual fazia parte O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente e um módulo de textos épicos, onde leccionaria Os Lusíadas. Inocentemente e cheia de estupefacção dirigi-me ao Conselho Executivo e perguntei se havia algum engano com os programas, eu não queria acreditar no que os meus olhos liam e depois não quis acreditar no que os meus ouvidos ouviram, pois o que me disseram é que não havia engano nenhum.

Na primeira aula, cheia de coragem e determinação, lá fui eu explicar aqueles meninos em que consistiria o nosso trabalho e de que forma se iriam desenvolver as nossas aulas. Elogiei ainda o facto de terem escolhido o curso de electricidade, uma vez que é um curso com grandes saídas profissionais e que poderá ser monetariamente muito compensador. Comentário de uma cabecinha pensadora «- Ganho mais no tráfico de droga». «A diferença - respondi-lhe eu -  é que a traficar drogas vais preso e tens uma vida miserável, e como electricista não». E desta forma estava dado o mote para um ano lectivo cheio de desafios.

Contra factos não há argumentos, tive que meter as mãos ao trabalho.

Como é que eu vou ensinar O Auto da Barca do Inferno a miúdos que até o nome escrevem com erros ortográficos? Indagava-me eu. (Sim, sim, não estou a inventar, nas primeiras aulas ensinei a um Saúl e a um Nélson que o nome deles tinha acento) O mais curioso é que desafiei-os a confirmar no B.I. e a estupefacção deles foi enorme porque nunca repararam que escreviam incorrectamente o próprio nome. Como é que estes miúdos, com idades compreendidas entre os 15 e os 20 anos, numa turma correspondente ao 9º ano, que falam e escrevem tão mal, têm condições para captar o sentido e descodificar um texto como os supra citados, escritos em português dos séculos XV-XVI?

Miúdos New Age, da linguagem «Telemovelística» e da Net, do «Bué, e do «Tá-se Bem» olhavam para mim como se eu tivesse acabado de aterrar, vinda de outro planeta quando lhes lia aqueles versos.

Apenas os ouvia sussurrar, atónitos, uns para os outros «-O que é que a Chavala disse?

E vá lá, vá lá, o que valeu, não só a mim, como ao pobre Gil Vicente, foi o facto de ter colocado no seu Auto a personagem Parvo, que no meio do seu discurso deixa escapar expressões como «puta da badana»,  «furtaste a trincha cabrão», e como esta é uma linguagem que lhes é familiar, eles perceberam na perfeição, a ideia que o autor pretendia transmitir. Pelo menos nesta cena ía sendo assimilada.

Leccionar Os Lusíadas tem sido outra “Odisseia,” do género do clássico Homero, e tal como Hércules vejo-me em trabalhos forçados, na tentativa desesperada de ensinar alguma coisa aos meus projectos de electricistas.

Recentemente fiz um teste ao episódio “Concílio dos Deuses” e numa das questões indagava «Quem é Vénus? Qual a sua função na acção?», um dos cérebros iluminados (ou não fosse ele um futuro electricista) respondeu «Vénus era a deusa do sexo e a função dela era comer os Portugueses».

Imaginem o meu ar quando li aquele comentário. Primeiro reli a resposta pois comecei por duvidar da minha sanidade mental, e depois soltei uma gargalhada porque afinal, o meu formando até ficou com umas ”luzes” relativamente ao que lhe ensinei. Vénus é a deusa do amor, podemos, em última análise, considerar que o sexo também é uma forma de amar, e quanto ao «comer os portugueses» o meu aluno conseguiu criar uma metáfora, exactamente a mesma de Padre António Vieira no seu Sermão de Santo António aos Peixes.

Seria cómico, se não fosse trágico.

Aviso à navegação: estes programas curriculares estão completamente desajustados à realidade dos nossos alunos, deixem os gabinetes, arrumem as gravatas, vejam às escolas de ténis e calças de ganga assistir ao nosso trabalho. Convido-vos a assistir às minhas aulas, a constatar a forma como diversifico as estratégias de aprendizagem na tentativa desesperada de lhes ensinar alguma coisa. Oiçam as vozes dos meus alunos perguntar”-O que é que isso me interessa?”, “Para que é que isso me serve?

Lamentavelmente sou obrigada a concordar com eles, estes programas estão completamente desfasados no tempo, no espaço e da realidade social destes miúdos. Não seria mais útil ensinar-lhes, dentro dos conteúdos da Língua portuguesa a redigir um Curricullum Vitae, uma carta formal, preencher um Requerimento, ensinar-lhes como se devem preparar para uma Entrevista de Emprego, ensinar-lhes a forma correcta de preencher um Formulário e muitos outros conteúdos que se inserem na minha disciplina e que de certeza, lhes poderia ser muito mais útil.

Agora, com o início do terceiro período aguardam-nos novas aventuras…

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