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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Insónia...

por aspalavrasnuncatedirei, em 04.04.07

 

                                                Imagem: Lago  Silencioso                       

 

São 4h 37ms, acordei assustada, com a sensação de que alguma coisa má estava para acontecer. Levantei-me, olhei para os meus filhos para me certificar que estavam bem, dormiam serenamente como dois anjos. Mas nem a doçura dos seus rostos me ajudou a tranquilizar.

 

 

Fui à cozinha, preparei o meu chá verde, fui à sala fiz zapping pela televisão, acendi um incenso de rosas brancas e um vela com o mesmo aroma. Coloquei no leitor de CD a Lacrimosa de Mozart e o nó no estômago continuava a persistir. Fui então à varanda e olhei para o céu “É lá que estão todas as respostas…”

 

Vi a minha vida passar numa tela, aquilo que fui, aquilo que sou. Vi-me pequenininha cheia de sonhos, tão certos de se concretizarem como a presença das bonecas que brincavam no meu colo, vi-me na faculdade, ainda mais sonhadora, e prestes a realizar, profissional e emocionalmente, tudo aquilo que até ali eram apenas quimeras.

 

Vi desfilar à minha frente os dois dias mais mágicos da minha vida – 25 de Setembro de 2000 e 12 de Janeiro de 2004 – os dias em que Deus achou que eu até nem era má cachopa e resolveu presentear-me, ou melhor, emprestar-me dois dos seus filhos, para me acompanharem nesta jornada, para encher de luz a minha vida.

 

Lembro-me de pensar “devo ter feito alguma coisa de muito bom para Deus me dar um presente tão precioso, ser mãe deve ser a recompensa de alguma coisa especial que eu fiz, e que não tenho bem a certeza de merecer”.

 

Completude! É a palavra que define aquilo que senti quando os meus pantufinhas nasceram. Podia ter morrido no parto, que a vida já teria valido a pena… bastou-me olhá-los.

 

Na tela continuaram a passar os momentos mágicos da minha vida, as pessoas especiais que dela fizeram e fazem parte. Senti-me abençoada. Tenho tudo, e porventura muito mais, do que preciso para ser feliz. Mas então… porque é que eu sinto às vezes um vazio tão grande? Porque é que eu sinto que falta qualquer coisa que me preencha?

 

Então entendi o motivo da minha insónia, do nó no estômago. Senti a necessidade de reflectir e de agradecer. Senti que tenho sido ingrata, com a vida, com as pessoas que me amam.

 

Como diz Alguém muito especial «Só quero aquilo que tenho, o que não tenho, não me faz falta», devo por isso aprender este sábio conselho, interiorizá-lo, fazer dele o meu lema e deixar de exigir à Vida que me traga aquilo que eu acho que é o melhor.

 

Quem me garante que seria mais feliz com um emprego melhor? Onde é que está escrito que o Amor é aquilo que eu idealizo dele? Quem é que me dá a certeza que aquilo que hoje me faz sorrir, não me fará chorar manhã?

 

Afinal com o que é que conto? O que é que eu tenho? No momento presente? No aqui e agora?

Tenho 33 anos, saúde, um espírito, uma alma, um coração.

 

Não tenho mais nada.

 

Os filhos não são meus, são uma dádiva divina, a casa não é minha, é do banco, o dinheiro não me pertence, é de tudo aquilo onde o invisto, o emprego é uma passagem com um curto tempo de validade, as pessoas que fazem parte da minha vida a quem chamo de ‘minhas’, na realidade não o são, são almas companheiras com quem fiz um pacto, num outro tempo, num outro espaço, «Estaremos juntas par cumprir a nossa missão», por isso é que nesta vida temos determinados pais, esposos, filhos, amigos…

 

As pessoas têm a mania de acreditar que são detentoras de um grande espólio material. Nada mais errado, a única coisa que realmente nos pertence é o espólio afectivo.

 

Se um Tsunami varresse a minha vida e levasse com ele a casa, o carro, o emprego as pessoas que amo, o que é que acontecia? Suicidava-me e achava que não tinha motivos para continuar a viver? Ou tentaria perceber o que é que a vida me estava a tentar ensinar e tentava construir uma vida nova?

 

É claro que estou a exagerar, que estou a hiperbolizar tudo isto, mas o que eu tenho que perceber, de uma vez por todas, é que a vida faz-se no aqui e agora. Cada momento é uma dádiva divina, não são só os filhos, por isso, cada segundo que desperdiço, cada lágrima que deixo cair no meu rosto, cada suspiro que solto são uma manifestação da minha ingratidão para com o Universo, são uma forma ambiciosa de lhe dizer «Desculpa lá, eu sei que tenho muito, mas ainda quero mais».

 

Quanta presunção!!!

 

Sei que o pensamento positivo condiciona toda a nossa vivência, e é a nossa perspectiva das coisas que as torna boas ou más, por isso, agora vou para a cama. Tenho a certeza que daqui a pouco o sol vai despontar e aquecer a minha alma, a minha vida. A Vida é de tal forma poderosa que sempre que um raio de sol nos ilumina e nos dá um novo dia, dá-nos também a possibilidade de um novo recomeço, de fazermos com a nossa vida aquilo que muito bem nos aprouver.

 

Daqui a pouco, quando acordar, vou deixar de ser ingrata, exigente e vou aceitar tudo aquilo que a Vida tiver para me dar _ bom e mau _ com a certeza de que estou no meu caminho, que nada é por acaso e que coincidências são coisas que não existem. Vou arrumar as gavetas da minha personalidade e redefinir-me, vou fazer a Vida valer a pena, já desperdicei muito tempo e o Tempo é tão precioso como a própria Vida.

 

 

 

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