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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Memórias de Uma Gueixa

por aspalavrasnuncatedirei, em 01.04.07

 

 

 

          Sou completamente fascinada pela cultura Oriental: os seus costumes, a sua gastronomia, os seus chás, a sua filosofia de vida, os seus rituais e, principalmente, as suas religiões.

          Por alguma razão, que desconheço, penso que seria uma pessoa muito mais feliz e muito mais completa se vivesse no Oriente mas, se Deus quiser, não morro sem me ajoelhar aos pés de Amida Nyorai.

         Há uns anos para cá que, sempre que posso, delicio-me com a comida chinesa, comecei também a interessar-me pelo Reiki, pelo Budismo, pelo Taoísmo, pelo Feng Shui e a encaixá-los na minha vida, com a consciência profunda de que tudo faz sentido. Com frequência perco-me ao som da musicoterapia chinesa, deixo-me enlear pela aromoterapia oriental e vejo e revejo filmes como O Tigre e o Dragão; O Herói; O Guerreiro, O Segredo dos Punhais Voadores… e a lista é interminável.

          Este fim-de-semana ‘devorei’ um livro que já estava para ler há muito tempo, Memórias de Uma Gueixa, de Athur Golden, mas as suas 489 páginas não eram muito compatíveis com as minhas actividades diárias e com a minha falta de tempo.

          Memórias de uma Gueixa é um épico que se desenrola num mundo fascinante, misterioso e exótico que conta a história de uma criança Japonesa, nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, que é arrancada à sua família de pescadores que vivia miseravelmente, para ir trabalhar como criada numa casa de Gueixas. Apesar de ser obrigada a conviver com uma rival traiçoeira, Hatsumomo, que quase lhe retira o encanto pela vida, esta criança, de olhos cinzentos translúcidos, desabrocha como um lírio transformando-se na lendária Gueixa Sayuri. Bela e muito inteligente, esta menina cativa os homens mais poderosos do seu tempo mas é assombrada pelo amor secreto que sente por um homem fora do seu alcance, que um dia lhe sorriu, tinha ela nove anos e lhe fez perspectivar uma vida feliz.

         A imagem daquelas misteriosas mulheres, maquilhadas de branco e vestidas com belos quimonos, sempre fascinou os Ocidentais.    Mas essa visão glamourosa não revela com acuidade quem realmente são, e o que fazem as Gueixas, porque fora das linhas geográficas Japonesas é comum que elas sejam conotadas como prostitutas de luxo, o que justifica o preconceito e o romantismo que as envolvem. Contrariamente ao que muitos imaginam, um cliente que paga pelos serviços de uma Gueixa, na maioria das vezes não se envolve sexualmente com ela, e quando isso acontece é uma decisão que cabe quase sempre à própria Gueixa.

         Os Ocidentais desconhecem, porque estão escondidos atrás de preconceitos morais, é que para uma mulher se tornar Gueixa é necessário que se submeta a vários anos de uma aprendizagem rigorosíssima, aprendizagem que começa na infância. Elas aprendiam a dançar, a pintar, aprendiam caligrafia, música, nomeadamente o shamisen, dicção, regras de etiqueta, interpretação teatral e tinham que estudar muito, até atingirem a perfeição. Além de toda a formação intelectual, elas tinham ainda que ter uma aparência irrepreensível, vestindo Quimonos pesadíssimos, cheios de adornos, uma maquilhagem branca que cobria todo o rosto de branco, oshiroi, usavam tamancos de madeira, zori, e tinham que ser sempre alegres e delicadas. As casas onde viviam eram sustentadas por um homem rico e, na maioria dos caso, casado - o danna. As Gueixas eram mulheres contratadas por homens poderosos com o objectivo de os entreter nas festas, reuniões de negócios, jantares, e o intuito delas era tratar seus clientes o melhor possível, proporcionando-lhes momentos de prazer e deleite. Cada momento com uma Gueixa podia custar quantias exorbitantes.

         A cada página desta obra assistimos às diferenças entre a nossa cultura e a das mulheres Gueixas. Curiosamente, aos nossos olhos são tão recrimináveis, tão diferentes de nós, mas como nos diz Sayuri « (…) muitas vezes dou comigo a perguntar-me porque é que elas não compreendem quanto de facto temos em comum», isto a propósito da mulheres que, de alguma forma, estão ligadas a homens ricos, 20 ou 30 anos mais velhos do que elas, vivem à custa do seu status, dos seus carros, das suas jóias, ou ainda, daquelas mulheres que toleram um homem, sem o amar, só por causa do dinheiro, o que não deixa de ser uma forma de se prostituírem… 

          Uma das passagens que considero fascinante neste livro diz respeito à cerimónia de mizuage, que é como quem diz, a perda da virgindade. É curioso que para qualquer adolescente, este acontecimento está envolto num clima de romantismo, de medo, de mistério e de secretismo. Qualquer uma de nós interrogou-se várias vezes “Como é que eu sei que chegou a hora?”, “Como é que eu sei que ele é o Tal?”, mas para Sayuri a experiência revelou-se muito diferente daquilo que nós poderemos imaginar. 

        A protagonista desta história entrega a vários homens, de estirpe elevada e por quem nutre algum respeito, um bolo que se chama ekubo, uma espécie de bolo de arroz-doce, que tem no topo uma cova com um pequeno círculo vermelho no centro, como sinal da intenção de lhe oferecer a sua castidade. Nas semanas seguintes a sua virgindade foi a leilão e o homem que ofereceu a quantia mais elevada, 11 500 ienes, valor histórico até então, iniciou-a na sua vida sexual.

         Assim, Sayuri, aos 15 anos deixou de ser virgem com um homem a quem chamava Dr. Caranguejo e que tinha idade para ser seu avô (o que aos nossos olhos é um exemplo bem claro e sórdido de pedofilia). Todo o cerimonial é preparado com todo o cuidado e requinte, ocorreu na casa de chá Ichiriki, na presença da mãe, da tia e da Mameha (uma espécie de irmã mais velha que lhe ensina os trâmites da profissão), a proprietária do estabelecimento também assistia, assim como o Sr. Bekku, que tinha a incumbência de lhe vestir o obi.Toda a indumentária era luxuosa, composta por um quimono preto.

         Enquanto se prepararam para o acto, propriamente dito, o Dr. Caranguejo colocou uma toalha branca no chão, para lhe absorver o sangue, e poder exibir assim, o seu troféu de caça. Não sem antes mostrar a Sayuri uma mala repleta de frascos de vidro onde guardava outros pedaços de toalhas ensanguentadas e que continham os nomes de todas as meninas a quem iniciara. No final o Dr. fez-lhe uma vénia e disse-lhe «Muito Obrigado».

         A educação, os princípios das mulheres Orientais e os Ocidentais podem ser muito diferentes mas os homens, esses, são iguais em qualquer parte do mundo, os seus interesses e desejos são os mesmos quer se trate de um Português, Árabe, Chinês, Japonês… e para elucidar o porquê das suas semelhanças passo a transcrever uma metáfora fabulosa, um excerto deste livro fantástico que vos aconselho vivamente a ler, que ilustra na perfeição o que acabei de escrever - «Os homens têm uma espécie de enguia, as mulheres não (…) a enguia passa a vida inteira a tentar encontrar um lar, e o que é que pensas que as mulheres têm dentro de si? Cavernas, onde as enguias gostam de viver. Esta caverna é de onde vem o sangue todos os meses quando as ‘nuvens passam sobre a lua’. As enguias funcionam de forma territorial, quando descobrem uma caverna de quem gostam, meneiam-se à roda lá dentro por um bocado até ter a certeza de que a caverna é simpática. E quando decidem que é confortável, marcam a caverna como seu território. A caverna de uma mulher é particularmente especial para um homem quando nenhuma outra enguia ainda lá esteve antes, a isto chamamos mizuage.»

 

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