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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Violação

por aspalavrasnuncatedirei, em 15.12.07

 

Imagem Retirada da Internet

 

 

Sophia era uma mulher como tantas outras, tinha uma personalidade interessante, estava longe de ser detentora de uma beleza esfuziante, mas era sedutora com o seu longo cabelo dourado pelas madeixas, os olhos doces, o rosto branco trigueiro e um corpo elegante que não acusava a maternidade de duas filhas.

 

A vida de Sophia dividia-se entre as exigências do seu emprego numa fábrica (sobrevoada pelo fantasma da falência), os afazeres domésticos e o apoio à família. Estava casada com Luís há dez anos, aparentemente eram um casal feliz, cúmplices na sua relação, que parecia ideal, pelo menos, a quem a via de fora. Luís era empregado bancário e trabalhava o mais que podia para ascender dentro da agência, nunca tinha horas para chegar e tentava a todo o custo mostrar-se disponível para agradar ao Gerente, pois sabia que a sua avaliação dependia do seu parecer. Confiava na mulher todas as tarefas ligadas à casa e à educação das filhas, confiava ainda na sua capacidade de organização e achava-a uma verdadeira Fada do Lar.

 

Numa cinzenta manhã de Novembro, Luís perdeu toda a doçura do rapazinho de liceu com quem Sophia tinha casado, ao tomar conhecimento que a promoção para a qual trabalhara durante tanto tempo, tinha sido atribuída a um colega seu, recentemente chegado à agência. Quando saiu, no final do dia, decidiu ir beber um whiskie com uns amigos, precisava esquecer aquele episódio, queria abstrair-se daquela rejeição e não lhe apetecia voltar para casa e ouvir as gargalhadas felizes das filhas. Incapaz de lidar com aquela frustração resolveu afogá-la numa garrafa de Cardhu.

 

Esta foi a primeira de muitas fugas, na direcção do bar, sucederam-se outras, e Luís começou a beber para esquecer. Gradualmente, foi-se afastando cada vez mais da família e começou a marcar presença pelos gritos com as filhas e pela boca a saber a Cardhu que, à força, começou a dar a provar a Sophia.

 

A primeira vez que Luís entrou no quarto e a acordou com a violência e o cheiro nauseabundo das noites devassas dos bares e discotecas que frequentava, com as mãos a cheirar a tabaco, a boca a saber a esmalte e um instinto animal ávido de sexo, Sophia sentiu que todo o seu  mundo ruía, sentiu-se como um criança pequena que na escuridão da noite é abusada pelo familiar mais velho, nojento, e não tem coragem de protestar porque nem percebeu muito bem o que é que aconteceu.

 

Luís não quis saber do seu desconforto, não ouviu o seu «NÃO», não percebeu o nojo que lhe sentiu. No dia seguinte acordou com um trago amargo da boca, da ressaca, com as lágrimas silenciosas de Sophia e com os sorrisos travessos, a seu ver insuportáveis, de duas crianças pequenas.

 

Sophia passou o dia a tentar negar o que acontecera, tentou desculpar a situação, porque Luís sempre fora um marido carinhoso e aquele episódio só podia ser explicado pela situação profissional, difícil, que estava a viver.

Tentava assim enganar-se a si própria, mas as imagens perversas, dolorosas da noite anterior, teimavam em não a abandonar, algo lhe dizia que o seu templo tinha sido profanado, e ainda por cima, por um homem que lhe jurara protecção e amor, e que era o pai das suas duas filhas.

 

Luís voltou a sair com os amigos, voltou a esquecer as mágoas, e a comemorar as alegrias com uma garrafa de whiskie e continuou surdo ao «Não» da mulher. A única diferença, é que era tudo muito mais violento, muito mais sofrido, porque a cada movimento o desespero, o medo de Sophia aumentava porque sabia exactamente o que vinha a seguir. Quem era aquele homem que estava ali?

 

Quando finalmente se libertava, Sophia arrastava-se para a banheira, sentava-se no chão e deixava a água correr-lhe em cima, contrastando assim, com as lágrimas que lhe corriam cara abaixo, num jacto intenso de vergonha e dor. Sentia-se suja, imunda. Água nenhuma conseguia limpar as manchas da sua alma e apagar a dor que tinha dentro do peito e no seu corpo.

 

Na manhã seguinte, ao ver o seu rosto sovado pelas lágrimas e pelas marcas de uma noite em branco, Luís pedia desculpa, chorava envergonhado e prometia que não voltaria a beber.

 

Passados uns dias voltava tudo ao mesmo. No dia em que Sophia ousou empurrá-lo e dizer-lhe aos gritos que não queria mais que ele lhe tocasse, sentiu na candura do seu rosto a força da mão de Luís. Prostrada no chão Sophia não conseguiu libertar-se daquele monstro que desceu sobre ela, insensível aos seus gritos, às suas lágrimas, aos seus pedidos de «Por favor, pára!», ao desespero do seu «NÃO!!!!». De nada lhe valeu o choro das filhas, que do lado de fora da porta do quarto, chamavam por ela num pranto quase tão desesperado como o seu. E a cena repetiu-se – aqueles beijos vorazes com um hálito insuportável, aquela mão enorme, rude que lhe puxava os cabelos, aquela outra mão violenta que a obrigava a abrir as pernas e lhe provocava uma imensa dor e o seu sexo viril que entrava dentro do seu corpo, rasgando-a ao meio, numa sensação de profunda agonia e dor.

 

Novamente sentada na banheira, Sophia tentava juntar os cacos do seu ser, consciencializam-se que aquele filme de terror, jamais chegaria ao fim. E pensava para consigo, o que dói mais na alma de uma mulher – a violação de um estranho, que a arrasta para um beco escuro, a toca e desaparece para todo o sempre, ou a violação caseira, o abuso de quem se amou, em quem se confiou e que um dia, profana de forma ímpia e impiedosa toda a sua alma?

 

Sophia aguentou ainda esta situação durante mais alguns meses, e teria continuado a aguentar a vida toda, afinal se a fábrica falisse para onde iria trabalhar aos 42 anos? Como iria sustentar as filhas?

Teria continuado a aguentar se a violência de Luís, continuasse a recair exclusivamente sobre si, mas um dia o marido resolveu estender a sua monstruosidade à filha mais velha, só porque esta deixou cair o comando da televisão, e quando Sophia se apercebeu também a sua menina, de apenas dez anos, era vítima das frustrações e da loucura do pai.

 

Naquela noite, enquanto Luís dormia, Sophia decidiu fugir de casa levando consigo apenas o que tinha de mais valioso. Acordou a custo as filhas e levou-as até casa da mãe. Pela primeira vez abriu-lhe o seu coração, contou-lhe o inferno que era a sua vida, os seus medos, as humilhações, as agressões e a violação de um homem que um dia a amara. Pediu-lhe ajuda, já, não aguentava mais viver assim, precisava de recomeçar uma vida nova, bem longe dali, com as filhas.

 

Ainda o sol não fazia incidir os seus raios sobre ela, e já Sophia estava a bordo do primeiro avião rumo a Luanda, onde esperava ser auxiliada por uma tia que ali vivia há já alguns anos. Durante o voo, Sophia rebobinou a cassete da sua vida e lamentou-se, com um misto de dor e desilusão, daquilo em que a sua vida se transformara, não percebeu onde é que perdeu o fio à meada da sua existência.

 

Mas decidiu que não iria ficar ali a lamentar-se. O momento agora era de renovação, transformação. Longe de Luís, o qual jamais saberia do seu paradeiro e o das suas filhas, Sophia tinha decidido renascer naquele dia e quando saísse do avião seria uma mulher nova, sem identidade e sem História.

 

 

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