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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Leva-me de volta a casa...

por aspalavrasnuncatedirei, em 19.06.16

Foto2.jpg

 

Olho à minha volta e aparentemente está tudo igual: os quadros nas paredes, os móveis, imóveis, pregados ao chão do tempo, o mesmo livro de selos esquecido em cima da escrivaninha, a tua caixinha de música ao lado, o relógio de sala que vai tiquetaqueando um eco sombrio que escorre pela casa toda, o gato confortavelmente sentado aos pés do teu sofá e o gira-discos a cantar os mesmos clássicos de sempre.

 

Tudo igual… tudo imaculadamente jaz nos lugares de sempre….menos tu…

 

Assalta-me a dor da tua ausência a cada dia que passa de uma forma cada vez mais letal. Foste-me roubada nesse fim da vida quando eu achava que estávamos apenas a começar, foste levada sem que eu tivesse tempo, de pedir ao tempo, só mais um bocadinho, só mais um dia de felicidade, só mais um beijo, só mais uma última dança ao som de Frank Sinatra, contigo nos meus braços a rodopiar as pregas do teu vestido.

 

Na tentativa de que me doas menos, evito folhear os álbuns de fotografias, esquivo-me de retirar com os meus dedos trémulos, os retratos com a tua pose segura, o teu rosto sorridente que um qualquer fotógrafo perpetuou para a eternidade só para aumentar a minha saudade. Eras tão bonita quando te conheci e mantiveste-te assim até ao teu último sopro de vida.

 

Sabes, eu tento…tento diariamente seguir em frente com os meus dias, mentalizo-me a cada acordar que não voltas, até já dei à tua irmã a maioria das tuas coisas que guardei imaculadas durante tanto tempo no roupeiro, mas o colar de pérolas que tanto gostavas e que usaste em todos os nossos momentos especiais da nossa vida em comum, dei-o à Teresinha, achei que ela ia gostar desta herança da avó. Que lhe traga boa sorte, que o use e que brilhe como sempre me iluminaste cada vez que o deitaste sobre o teu pescoço esguio e branco.

 

Também deixei de borrifar com o teu perfume a almofada vazia que dorme ao meu lado. Que tonto que sou, eu sei, mas era só para criar a ilusão que ainda dormias na nossa cama, deitei fora ainda a escova de dentes cor-de-rosa ao lado da minha azul, na casa de banho do nosso quarto. E esvaziei as gavetas onde repousavam pequenos nadas teus que se tornaram tudo. O que me sobra agora no espaço em meu redor, falta em presença dentro da minha alma. Faltas-me tu…

 

Percorro em silêncio cada uma das divisões na casa, deslizo as mãos pelo pó do vazio que se instalou nos móveis, pelas teias de aranha do abandono, na esperança que os meus dedos se transformem em varinhas mágicas e com um gesto de perlimpimpim te tragam de volta a habitar a minha vida. Detenho-me nas fotografias que contam a nossa história, são 40 anos distribuídos em molduras que retratam o tempo das quimeras, dos sonhos cumpridos, dos filhos que brotaram na nossa árvore genealógica, nas primeiras rugas que a vida foi sulcando nos nossos sorrisos e que em cada uma reconheci traço raro de beleza em ti…até nisto foste única, a passagem do tempo pelo teu corpo só serviu para o tornar mais belo aos meus olhos que sempre te amei como se te visse pela primeira vez.

 

Eu sei que a vida se faz de ciclos, tempo para nascer, para plantar, para colher e tempo para morrer mas não sei viver uma vida da qual não fazes parte, não sei viver uma história na qual não entres como personagem, não sei cantar porque tu eras a melodia que me embalava, não sei sorrir porque era de ti que vinha a centelha da alegria.

 

Onde quer que estejas apressa-te em me vir buscar e leva-me de volta a casa.

 

 

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Texto: Sandra Barbosa

Todos os direitos de autor reservados

Imagem: Retirada da Internet

 

Tudo o que não vivemos

por aspalavrasnuncatedirei, em 12.06.16

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Tenho saudades dolorosas de tudo aquilo que não vivi contigo, é estranho, supostamente deveria inflamar-me na nostalgia de tantos momentos mágicos partilhados a dois, mas o que rasga cada página da minha vida, e depois de tanto tempo, é a angústia de tudo aquilo que ficou por viver.

São coisas pequenas e simples que me assaltam no dia-a-dia, que me deixam vazia e despojada de mim, sem saber como te fazer parar de me doer, porque a morte das pessoas que amamos não equivale ao desaparecimento dos afetos e emoções.

Hoje amanheci mais cedo do que é habitual e fui caminhar à beira-mar. Dei um passeio daqueles que arrumam as gavetas da vida e purificam pensamentos em desalinho. Quando me apercebi, as minhas lágrimas salgadas uniam-se às ondas quando te imaginei a caminhar de mão dada comigo. Não imaginas as vezes que sonhei com isto: tu ao meu lado a partilhar gargalhadas cúmplices sempre que tropeçássemos no branco das conchas ou na melodia dos búzios; as mãos entrelaçadas nos dedos um do outro; tu a guiares-me rumo a um destino que se afigurava brilhante à nossa frente. E quando percebi que jamais iriamos deixar as nossas pegadas desenhados na maciez da areia molhada, senti como lâminas frias, a água nos pés, sem que me pudesse aquecer no calor do teu abraço e deixei-me então cair sobre as vagas, na esperança que este sofrimento fosse levado para um mar longínquo.

Saí da praia, fugindo da tua ausência ali, e fui tentar aquecer a alma bebendo o sol no chá de uma esplanada. Pedi ao empregado uma infusão de menta que surgiu minutos mais tarde (sem que ele próprio soubesse) acompanhado de imagens tuas. Apesar de não teres sido convidado, ali estavas tu, na cadeira ao meu lado como sempre te sonhei, trazias um livro para partilhar frases soltas, caneta para registar as palavras que dão origem a novas histórias e caderno de capa preta para colorir a dois com as metáforas que sempre nos invadiram na espontaneidade das conversas.

Eu sei que o véu do tempo irá desvanecer a memória de todos os momentos doces e especiais que vivemos, lentamente… o ponteiro dos dias encarregar-se-á de atenuar o brilho dos teus olhos faroleiros, o som da tua voz a entoar melodias ao meu ouvido, a suavidade das tuas mãos no desejo da minha pele, mas como apagar o vazio deixado no peito desabitado e a tristeza de tudo aquilo que não vivemos?

 

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Texto: Sandra Barbosa

Todos os direitos de autor reservados

Imagem: Retirada da Internet

 

Quero ser como tu

por aspalavrasnuncatedirei, em 03.06.16

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- Mamã, quando for grande quero ser como tu! - dizia eu pendurada no teu pescoço enquanto me abraçavas feliz e me pegavas ao colo fazendo-me rodopiar no ar. Trago na mais doce das lembranças os passeios que dava dentro dos teus sapatos de salto alto, metia os meus pés minúsculos dentro das tuas sandálias elegantes e caminhava desengonçada na cozinha para ouvir os saltos tilintarem nos mosaicos.

O tempo jamais apagará a imagem pateta do meu reflexo no espelho quando vestia os teus vestidos. Lembro-me especialmente de um branco com flores com vários tons de azul que iluminavam ainda mais os teus olhos cor de céu e que me enchiam de orgulho quando o vestias e te via, jovial e esbelta, ao portão da escola. Eu olhava para ti e sentia-me a mais sortuda das meninas, constatava sempre que eras a mais bonita das mães que ali aguardavam pelos filhos. À tua volta uma aura angelical, que ainda hoje te caracteriza, contagiava todos ao teu redor. Recordo o dito vestido a arrastar pelo chão, eu, muito pequenina, 5 ou 6 anos de gente, escondida na imensidão do linho, que a ti te assentava como uma luva, olhava para o meu reflexo e tentava encontrar alguma coisa que projetasse a tua beleza no meu reflexo em ponto pequeno.

Hoje, quando passo blush pelo rosto, são frequentes as vezes em que viajo no tempo e rememoro os momentos em que assaltava a tua prateleira de maquilhagem. Quantas vezes o meu rosto de menina-travessa se transformou em arlequim fora do carnaval? Quantos batons te estraguei? Quantas toalhas imaculadamente brancas eu sujei de negro para retirar o rímel dos olhos, na esperança vã que nunca descobrisses?

Ainda tenho guardada a memória das nossas noites de mimo, embrulhadas numa mantinha, dos serões de conversa animada, ou daqueles momentos em que chorava no teu colo a tristeza que às vezes me invadia.

Cresci com um desejo enorme de ser como tu, envaidecia-me sempre que alguém dizia que eramos parecidas, que tínhamos o mesmo sorriso, a mesma voz. Com o passar dos anos apercebi-me da sorte que era ser tua filha, ser educada por alguém com os teus valores, partilhar a vida com alguém tão especial. Reconheço em ti a doçura, a bondade, o espírito de trabalho, entrega, sacrifício, o altruísmo, que não reconheço em mais ninguém. Tento encontrar-te defeitos, mas não existem, quanto muito poderia dizer que és demasiado boa pessoa, que proteges carinhosamente, que acreditas excessivamente nos outros, que te sacrificas descomedidamente pelos que amas, mas serão isso defeitos?

Hoje também sou mãe e continuo a querer ser como tu. Ensina-me a ter as respostas certas nos momentos sombrios dos meus filhos, como fizeste comigo, aconselha-me as palavras sábias que iluminam os atalhos da vida, diz-me como transformar o meu peito num porto seguro, daqueles em que acolhemos a nossa prole quando naufragam nas escolhas da vida e é em nós que encontram a paz para ancorar. Revela-me o segredo dos teus abraços, que embalam e projetam com coragem, para os desafios diários a enfrentar. Ensina-me a ser melhor pessoa a cada dia, a ser amada pelos meus filhos, como tu és por mim.

 

 

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Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

 

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