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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Tanto para te dizer e as palavras a morrerem-me em silêncios

por aspalavrasnuncatedirei, em 10.02.16

silêncio1.jpg

 

Quando penso que entre nós já foi tudo dito, fico sempre com a sensação estranha que ainda tenho tanto para te dizer…

Eu sei que nos momentos certos te confessei todo o meu amor, nunca me poupei a palavras, a manifestações de afeto, acima de tudo preocupei-me que as minhas ações estivessem sempre em sintonia com tudo aquilo que disse e sim... amei-te muito...

Nos dias cinzentos, quando entre nós se instalaram os estilhaços que viriam a quebrar-nos, raramente me refugiei no silêncio, nesses momentos também te disse onde me doía a voz, onde sangrava o coração, onde caía cada uma das minhas lágrimas.

Mas nunca te disse que passado tanto tempo continuo a beber café na nossa esplanada favorita e a ver o teu sorriso de menino (aquele, por quem um dia me apaixonei) sentado à minha frente, de mão dada comigo, da mesma forma que escondo que se mantêm vivas pequenas memórias tuas, pequenos apontamentos nossos. Recordo a tua boa disposição quando me acordavas de manhã, a forma como te movias pela cozinha enquanto me preparavas o pequeno-almoço, a maneira metódica como organizas a tua agenda diária, como escolhes a roupa, como fazes o nó da gravata e até, como engravatado e de camisa branca, engraxas os sapatos.

Nunca te disse mas mantenho viva em mim a alegria de te ver abrir a porta e entrar em casa, as miúdas correrem na tua direção, o pastor alemão saltar com as patas no teu colo, a gata a ronronar em círculos pelas tuas pernas e, principalmente, a tua boca a caminhar na minha direção, acompanhada dos braços que me envolviam docemente.

À noite, quando me deito ainda te acompanho imaginariamente em todos os rituais até chegares à cama e continuou a adormecer em concha aninhada em ti. Sabes, o tempo não apagou as linhas do teu corpo que conheço de cor, ainda sinto o toque da tua mão no meu cabelo para me adormeceres…ainda sinto a tua mão a deslizar sobre o meu corpo para me acordares…

Tanto que se disse, tanto que ficou por dizer... mas nunca foram precisas palavras entre nós para comunicarmos e, onde quer que estejas, só tu sabes aquilo que calo.

Almas destinadas...unem-se no momento certo...

por aspalavrasnuncatedirei, em 03.02.16

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Depois de arderem nas labaredas de uma paixão avassaladora que lhes consumiu primeiro a carne, depois o amor e mais tarde os sonhos até à exaustão, seguiu-se uma fase estranha e conturbada, alimentada por dúvidas, o que os fez decidir que o melhor para as suas vidas era separarem-se. Ela seguiu a estrada à esquerda com os olhos postos na linha do horizonte, ele optou pelo caminho da direita e não olhou para trás. Esqueceram-se de um pormenor importantíssimo: é que o mundo é redondo e no fim dos seus trilhos, cruzaram-se novamente.

Pelo meio, alguns anos a separá-los, cada um deles conheceu novas pessoas, voltaram a apaixonar-se, a jurar que era para sempre, mas no véu do tempo a perenidade do romance esfumava-se.

Encontraram-se novamente quando se desencontraram da vida, quando tudo à volta deles parecia ruir. Ela saiu disparada do trabalho não aguentando mais a pressão, não suportando mais o chefe, não tolerando mais a incompetência daqueles com quem trabalhava. Ele saiu porta fora de mais uma relação vazia, farto de ciúmes, de birras e de lágrimas sem sentido. Cansada, encaminhou-se para a ponte, gostava de ver os barcos a passar, imaginar a felicidade daqueles que chegavam e as inseguranças daqueles que partiam. Ele gostava de ver as luzes projetadas no rio e ver os seios saltitantes das meninas que corriam por ali.

Sem que nada os tivesse preparado…os seus olhos tropeçaram um no outro, já a ponte estava a meio, quando lhes era impossível dar um atrás para fugir ao destino. E nesse instante a magia aconteceu: as gaivotas calaram o seu canto, os barcos silenciaram o seu apito, os carros desligaram os motores e as meninas que corriam ficaram imóveis, a água do rio pacificou o seu curso. Só a melodia dos corações assustados os envolveu, só o eco dos tempos em que foram felizes se fez ouvir, só o amor que um dia sentiram gritou mais alto que tudo na vida naquele momentol.

Aproximaram-se lentamente… ficaram a ler nos olhos um do outro, toda a felicidade sentida naquele momento, o brilho há tanto tempo perdido começava agora a despontar. Ele, para ter a certeza que não estava a sonhar, passou as mãos pelo seu cabelo negro tomando-lhe o acetinado dos caracóis. Ela fechou os olhos para se equilibrar e não desfalecer naquele afago. Sentindo-a trémula, abraçou-a tremendo também. Naquele instante perceberam o motivo de todas as relações falhadas, todos os sonhos desiludidos, toda a procura que os trouxera até aquela ponte. O motivo era simples: quando duas almas estão destinadas a ficarem juntas, o tempo encarrega-se se as unir no momento certo.

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