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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Lost...

por aspalavrasnuncatedirei, em 31.01.16

Às vezes não estamos perdidos...só não sabemos o caminho...

 

 

Perdi demasiado tempo à espera do que não veio

por aspalavrasnuncatedirei, em 02.01.16

Perder Tempo.JPG

 

Olho para as cortinas da minha vida e assalta-me um incómodo profundo daqueles que rasgam o peito onde bate um coração já tão gasto e cansado. Numa tela desfilam alguns dos sonhos que tive mas nunca tive coragem de concretizar, fui daquelas mulheres que sempre acreditaram que era melhor deixar como está, para ver como fica e o destino não teve complacências com a minha fraqueza.

Pouco pedi a Deus quando era uma tenra menina, queria ser bailaria, como aquela que eu tinha visto uma vez na capa da revista Crónica Feminina. Era tão linda, tão leve, o seu vestido cor-de-rosa lembrava um pedaço de algodão doce, que eu acabei por manchar de tantas vezes que a segurei nas minhas mãos encardidas. Tinha ainda outro sonho, casar com o António Maria de Vasconcelos, o filho do advogado lá da vila, que tinha os olhos iguais aos do Alain Delon, usava chapéu de coco e fumava cigarrilhas. Mas o morgado só namoriscava meninas ricas e nunca reparou nos suspiros que escapavam do meu peito adolescente quando nos cruzávamos aos domingos na missa.

Perdi demasiado tempo à espera de uma história de amor feliz e quando percebi que os anos estavam a passar rapidamente, apressei-me a casar com o Xico Elias antes que a validade do meu corpo caducasse, aguardando que a amizade se transformasse num sentimento maior. Mas o amor não veio, vieram apenas os filhos, uns atrás dos outros concebidos em noites animadas quando o Benfica ganhava na televisão da taberna do Zé Pinguço, ou nas noites de absinto quando a raiva tinha de ser apazigada pelo fracasso das colheitas.

E os anos continuaram a arrastar-se entre tempo de plantar e tempo de colher, entre tachos e panelas, fraldas e biberons, entre o choro de febre e as gargalhadas em cima das árvores. Nunca houve espaço para ser outra coisa que não fosse mãe, que não fosse ser dona de casa, que não fosse trabalhar de sol a sol com o meu Xico Elias para que pudéssemos mandar os gaiatos para a cidade, para que aprendessem as letras e os números e voltassem doutores. E, até aí, perdi demasiado tempo à espera do regresso que nunca veio.

Perdi ainda muito tempo à espera da ocasião especial para vestir o vestido branco com florzinhas azuis e verdes. Comprei-o à D. Guilhermina da retrosaria e fui pagando longos meses sem que o Xico suspeitasse. Queria estreá-lo quando fôssemos à capital ver um bailado no dia do meu aniversário, como me tinha prometido quando nos casámos. Mas todos os anos eu apagava as velas e o espetáculo era adiado para o ano seguinte, assim como o vestido era adiado e ficava ano após ano mais amarelo dentro do baú, perdendo para sempre a brancura original.

O meu Xico não é mau diabo, mas nunca me fez mulher. Perdi demasiado tempo à espera que ele soubesse entender que o meu ventre era mais do que uma terra onde semeava os filhos, que os meus braços eram mais do que um berço que os embalava nas noites demoníacas, que compreendesse que o meu peito podia alimentar-lhe os desejos de varão, que desse à minha pele a oportunidade de vibrar e arrepiar como vi naquele filme da Brigitte Bardot e, aguardei em silêncio que provocasse à minha voz um uivo como aqueles que eu ouvia às fémeas da pastagem.

Hoje continuo a perder demasiado tempo à espera: da telenovela das oito, do vento que enxuga os lençóis nos estendais, das chuvas que abençoam as sementes, dos filhos, das noras, dos genros e dos netos que regressam a cada Natal onde ainda consigo reunir todos à volta da grande mesa. Oiço distraída as suas aventuras, partilho das suas conquistas, leio-lhes os fracassos que escondem.

Perdi demasiado tempo à espera do que não veio…inclusivamente da morte que tarda todos os dias em me vir buscar e que já é há tanto tempo bem-vinda.

 

 

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