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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Não Sei Quem Sou

por aspalavrasnuncatedirei, em 22.02.10

Imagem Retirada da Internet

 

Hoje quando me olhei no espelho do elevador senti-me como uma actriz que veste a pele de uma personagem antes de entrar no palco. Enquanto o ascensor sobe até ao 9º andar de casa do pai, preparo-me para ser a Beatriz, quando subo ao 4º andar de casa da mãe, sou a Bia. Mas porque raio se separaram os meus pais? Ou melhor, porque raio se casaram eles e me trouxeram a este mundo? Todos me dizem que foi o melhor, que eles não eram felizes e que decidiram construir vidas novas. Vidas novas?!? O que eles têm chama-se vida? Então eu não quero viver… para não ter de crescer, não ter de amar, para não ter de constituir uma família e para não ter de a destruir depois. A minha mãe tem a mania da perseguição, acha que é tudo um complot contra ela, toma comprimidos para conseguir adormecer, toma comprimidos para conseguir acordar. Fala mal das colegas do escritório, fala mal do meu pai, da namorada dele. Por outro lado o meu pai só pensa na filha mais nova… na minha irmã (ainda não me habituei à palavra, pior, ainda não me habituei à ideia). Olho para eles e sinto-me uma estranha, fico com a sensação que estou a mais naquela fotografia que o pai tem na secretária do escritório: eu, ele, a outra, e a bebé, é estranho, eu não pertenço a nenhum deles. Detesto ter de agarrar a Matilde ao colo e posar para a fotografia das famílias felizes, detesto sentir-me uma visita na casa do meu pai. Eu sei que ele me adora, a Francisca também, mas ela não é minha mãe, ela é a mulher que habita o coração que já pertenceu à minha mãe (e lho roubou), no qual nós ainda deveríamos viver. O pior de tudo são as regras, tão severas de um lado, tão permissivas do outro. Em casa do pai come-se a horas certas, obrigam-me a sentar direita no sofá, a pedir «-Com licença» sempre que me levanto da mesa, obrigam-me a ser arrumada, a fazer a cama, a estudar todos os dias, controlam o tempo que falo ao telefone, que estou no msn, que vejo televisão, controlam-me as saídas com os amigos. Com a mãe posso ver os Morangos enquanto janto na sala, posso dormir todas as manhãs de Domingo, sair quando quero. O pior é que ela gosta de me acompanhar. A Gina e a Zézinha acham que eu tenho muita sorte, dizem que a minha mãe é fixe que parece que tem a nossa idade. Já os rapazes, babam-se quando estão perto dela, acham-na linda, divertida e outras parvoíces do género. Em casa discutimos por tudo e por nada. Nunca me empresta a roupa dela, mas rouba-me descaradamente os vernizes, não me deixa usar o seu perfume, mas gasta-me os sais de morango que a tia Milu me deu no aniversário. Não consigo encontrar o equilíbrio… não sei quem sou…

 

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