Desculpa...

Olhou para o vidro embaciado e fixou o olhar nas linhas que deslizavam na vidraça, sugestionadas pelo som do vento e pelos acordes da chuva, semelhantes às lágrimas que deslizavam tristes pela pele do seu rosto. Lá fora o frio e neve, no seu peito o frio e o gelo. Como acontecia quando era criança, e precisa de um peluche para adormecer, necessitou do seu afecto para naquela noite dormir melhor. Levantou-se descalça, semi-despida e foi invadir o seu habitáculo de papéis e relatórios, projectos e planificações. Entrou a medo, sentindo que profanava com o seu amor, a sua inocência, aquele templo sagrado. Beijou-lhe levemente o cabelo, na esperança que ele retribuísse o afecto e lhe desse um carinho que lhe restituísse a paz. O beijo não veio… a reacção ao toque dos seus lábios, também não. Recuou triste, passo a passo, com o olhar desiludido sobre aquela figura estranhamente humana que se afigurava à sua frente. Observou aquele homem que a cada instante se tornava mais irreconhecível apesar de dividir com ele a mesma casa, a mesma mesa, a mesma cama: envolto na névoa do fumo do cigarro, absorto pela imagem reflectida do computador, mão agitada sobre o rato, a outra esquecida no copo de Whisky (a combinação perfeita de todos os seus vícios). A cinza tomava conta do cigarro e os seus dedos deram dois pequenos toques mecânicos retirando o excesso para o cinzeiro de vidro, repleto de vestígios de outras horas e cigarros mortos. Levou novamente o cigarro à boca seca inalando com prazer o fumo e absorvendo todo o alcatrão e nicotina estimulante. Num suspiro deixou escapar o fumo numa nuvem entrecortada que o envolveu num abraço que deveria ser seu. Desolada com transparência a que era votada, recuou lentamente chocando com a estatueta de mármore. Um olhar irado fulminou-a com uma agressividade cortante de onde saíram palavras afiadas «-És mesmo desastrada, vai dormir.» Correu para o quarto, sem saber se fugia com medo de ser avassalada pela avalanche de lágrimas que se aproximava, se das farpas aguçadas daquela voz. Atirou-se para a cama, mergulhou os soluços que rebentavam na almofada e chorou… chorou pelos sonhos que nunca chegou a concretizar, por todos aqueles que se perderam, pela presença de um homem na sua vida que transformara num estranho, por tudo aquilo que abdicou em prol de uma história de amor. Perguntava a cada lágrima onde é que tinha errado, onde foi que o amor se transformou em indiferença, e quando é que de bestial passou a besta. A fonte das lágrimas secou no momento em que a exaustão se apoderou do trapo velho a que chamava corpo e adormeceu. Mais tarde também ele se entregou ao descanso de uns lençóis macios. Aproximou-se… devagarinho… lentamente… tentando, sem que desse por isso, absorver-lhe o calor. Olhou-a envergonhado, arrependido, e admirou uma vez mais a sua beleza. Deixou que o seu nariz, o perfume que brotava do seu corpo, autorizou os lábios a tocarem a sua boca levemente, numa carícia terna de quem quer dar mais e não sabe como, e sem dar autorização espaçou do mais íntimo de si um «-Desculpa». Os seus sentidos tinham-na avisado que ele chegara à cama, mas como não queria discutir uma vez mais, fingiu que dormia. Sentiu que o seu corpo frio a procurava, desejou ter correspondido ao seu beijo, mas os seus gestos tinham-na abandonado e não lhe obedeciam. Aquele pedido de desculpas apanhara-a incauta, acontecimento inédito, único, cuja probabilidade de se repetir era uma num milhão. O pouco que lhe dava era tanto, na vida qualquer coisa sabe melhor quando se sente a falta, por isso sorriu e rezou baixinho para que ao acordar, o homem que estava deitado ao seu lado, fosse o mesmo com que sonhava todas as noites, o mesmo que um dia conheceu, o mesmo que um dia a amou.
De Mariadomar a 7 de Novembro de 2009 às 23:42
Adorei, Sandra!
Magistralmente bem escrito e de uma profundidade enorme.
Este é o drama de muitas mulheres, infelizmente.
Ainda bem que escreveste sobre isso...talvez ajudes alguma a "acordar".
Beijo enorme!
Olá mariadomar.
É verdade, este é o drama de muitas mulheres: amam, são desprezadas, vítimas de violência psicológica e, em nome de um pseudo-amor, insistem em manter este tipo de relacionamentos.
Beijinho grande, bom fim-de-semana.
O amor, penso eu, não se rende as imperfeições humanas, o bem querer, a entrega e o castelo de sonhos a que chamamos amor não dura senão um piscar de olhos. Perdemos um tempo considerável de nossas vidas tentando definir o que sentimos e quando chegamos a uma conclusão plausível, já não o sentimos como outrora.
Dessa forma, as expectativas que criamos com base no que compreendemos que pudesse ser amor conflituam com nosso eu imperfeito: «-És mesmo desastrada, vai dormir.»
Ainda mais triste é ter o afeto como um meio de contornar, consertar e reconquistar as situações e pessoas perdidas. Oras, se amar é nunca precisar pedir perdão (definição de séculos passados), o que fazemos quando incorremos em homenagens, buquets, poesias e demais afetuosidades? Reduzimos o amor a um mero «-Desculpa»
Dizem que o amor verdadeiro não acaba, eu já penso que o amor é a maior e mais subjetiva das abstrações humanas.
Bacini del Brasile
Grazie mille.
Obrigado por nos brindar com tuas palavras!
Olá Eduardo.
As suas palavras são sempre bem-vindas neste espaço. É um prazer lê-lo.
Obrigado, porém como eu não creio no amor, pode ser que eu contribua cada vez menos com tuas sublimes palavras.
Ainda assim é sem dúvida o sítio mais inspirador da internet.
Bacini.
Em Portugal temos utilizamos um provérbio sábio que diz «Por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera».
O amor é o sal e o sol da vida, não deixes de acreditar.
De
Lua a 8 de Novembro de 2009 às 17:12
Fim surpreendente e totalmente inesperado para mim.
Gostei. Beijinho
De
Nuvem a 9 de Novembro de 2009 às 15:34
Gostei muito, mesmo.
E é uma realidade para tantas mulheres (e homens).
Mas, acredito que no fim o amor vencerá sempre :)
Olá Nuvem.
Obrigada por teres voado por aqui.
Beijinhos.
estórias à parte, apetece-me criticar o estilo da escrita. É assim... temos dias assim e sei que não te vais chatear. Estás a fugir dum estilo fantástico e que era muito teu e a entrares num de ja vu chato e melancólico. ou serão os meu olhos? acho que não. Mas deixa lá, não ligues a criticos... principalmente dos que não entendem nada de escrita. ATÉ JÁ ;D
Olá amigo.
As tuas críticas são sempre muito bem-vindas. O estilo é melancólico porque a história também o é. Foi-me contada num relato sofrido, num abandono a qque muitas mulheres chamam de «amor».
Beijinhos portugueses.
De Dina a 10 de Novembro de 2009 às 20:15
Que saudades que eu tinha de ler um post teu
.....como sempre muito bonito!
Beijocas grandes para ti e para os teus pantufinhas espero que esteja tudo bem com vocês.
Olá Dina.
É sempre bom receber notícias tuas.
beijinhos para ti, para o Diogo e para o teu filhote.
De apenas alguem a 17 de Novembro de 2009 às 05:39
Na obscuridade da noite quero esconder-me, amar-te e refugiar-me em ti...
e depois de te amar, quero morrer para que o nosso amor seja perfeito e interminável ...
se quiseres podes acompanhar-me, eu convido-te... eu peço-te para que venhas comigo,
respirar juntos pela ultima vez...apenas um beijo nos meus lábios e morre comigo...não tenhas
medo e dá-me um momento de glória até a eternidade ...
Olá... apenas alguém...
que palavras tão bonitas.
De apenas alguém a 17 de Novembro de 2009 às 21:19
...são apenas palavras, assim como as tuas, exprimem sentimentos genuínos , da alma.
As palavras nunca são «apenas palavras» elas são poderosas...
De apenas alguém a 17 de Novembro de 2009 às 21:30
...são poderosas para quem as entende como elas devem ser entendidas...já agora, espero que não me leves a mal e quero desde já pedir perdão pela ousadia, mas o teu texto está fabuloso, assim como todos os outros que tenho lido, mas neste, existe um paragrafo que falta essência ": "Deixou que o seu nariz, o perfume que brotava do seu corpo..." depois do nariz, falta dar continuação ao sentido do olfacto , na minha singela e muito humilde opinião.
Vou pensar nisso 
De
PP a 25 de Novembro de 2009 às 15:10
Deixo uma pequena palavra de elogio e admiração.
Aproveito tambem para dizer que adicionei o teu blog aos meus favoritos
*
Olá.
Obrigada 
Beijou-lhe levemente o cabelo, na esperança que ele retribuísse o afecto e lhe desse um carinho que lhe restituísse a paz. O beijo não veio… a reacção ao toque dos seus lábios, também não. Recuou triste, passo a passo, com o olhar desiludido sobre aquela figura estranhamente humana que se afigurava à sua frente.
Como entendo o que aqui escreveste...
Parece que estamos a invadir um espaço no qual deveríamos estar presentes! E ser desejadas?
Depois, quando simplesmente vamos embora... deixando-lhes todo os espaço do mundo, não entendem.
Vidas!
Olá.
Nem sempre nos entendem com queríamos, ou melhor, como precisamos.
Beijinhos.
De Eternosamigos a 20 de Dezembro de 2009 às 11:12
Olá, descobri agora o teu blog e quero dar-te os parabéns. Penso que hoje em dia os homens também sofrem deste mal, muito mais que o que se pensa, mas por vezes a vergonha fala mais alto.
só queria mesmo dar-te os parabéns pelas palavras bonitas.
Olá, bom dia.
Obrigada pelas tuas palavras. Os homens ainda escondem muito os seus sentimentos (tanto os de amor, como os de dor) o que é lamentavel.
Bom resto de Domingo.
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