Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010
A Dona da História

 

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Este fim-de-semana desloquei-me ao teatro Villaret para assistir à peça A Dona da História. Devo confessar que há muito tempo que não tinha uma noite tão agradável, que não via uma peça tão boa, que não via a minha vida a dramatizar em cima de um palco. A representação esteve sublimemente interpretada pela Joana Solnado e Manuela Couto, que nos contagiam com o brilho dos seus olhos, com o poder da linguagem gestual, com o dom da palavra. A Dona da História coloca em discurso directo duas fases de uma mesma mulher, uma aos 20 e outra aos 50 anos, com todas as suas inquietações, receios, devaneios e aspirações. Em cena, não é somente o passado e o presente de cada um dos lados do espelho, em discurso há todo um universo feminino com que todas as meninas sonham, que passa pelo encontro com o Príncipe Encantado, as aspirações profissionais que depois a mulher mais velha comenta numa fantástica ironia e num diálogo delicioso. Desfila perante nós, uma plateia completamente arrebatada à peça, o desgaste do casamento, naqueles pequenos nadas que conseguem acabar com um grande amor. Colocam-nos a cada momento as perguntas iniciadas por “Se…” que todas nós nos colocamos nos momentos chave da nossa vida: se vale a pena viver um grande amor, para mais tarde nos desiludirmos com ele, se vale a pena irmos ao baile, sermos pedidas em casamento, para depois sermos apelidadas de «devoradoras de pescoços de galinha», se vale a pena telefonar àquela amiga, que nos vai roubar o namorado…  A peça também nos faz pensar sobre a eterna dúvida que nos atormenta a existência “O que é que teria acontecido se…”. O facto de a rapariga de 20 anos saber sempre quais as consequências dos seus actos (porque a mulher de 50 comenta) leva-a a tentar mudar o rumo dos acontecimentos na tentativa sonhadora/desesperada de ser feliz. Compreendemos então que a felicidade não é um estado perene, mas sim momentos sublimes que vale sempre a pena viver.

 



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Sábado, 28 de Novembro de 2009
We can do Anything

 

 Apaixonei-me por esta música, pela magia dos sons, pela sabedoria da letra. Partilho-a convosco.

 


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Sábado, 7 de Novembro de 2009
Desculpa...

 

Olhou para o vidro embaciado e fixou o olhar nas linhas que deslizavam na vidraça, sugestionadas pelo som do vento e pelos acordes da chuva, semelhantes às lágrimas que deslizavam tristes pela pele do seu rosto. Lá fora o frio e neve, no seu peito o frio e o gelo. Como acontecia quando era criança, e precisa de um peluche para adormecer, necessitou do seu afecto para naquela noite dormir melhor. Levantou-se descalça, semi-despida e foi invadir o seu habitáculo de papéis e relatórios, projectos e planificações. Entrou a medo, sentindo que profanava com o seu amor, a sua inocência, aquele templo sagrado. Beijou-lhe levemente o cabelo, na esperança que ele retribuísse o afecto e lhe desse um carinho que lhe restituísse a paz. O beijo não veio… a reacção ao toque dos seus lábios, também não. Recuou triste, passo a passo, com o olhar desiludido sobre aquela figura estranhamente humana que se afigurava à sua frente. Observou aquele homem que a cada instante se tornava mais irreconhecível apesar de dividir com ele a mesma casa, a mesma mesa, a mesma cama: envolto na névoa do fumo do cigarro, absorto pela imagem reflectida do computador, mão agitada sobre o rato, a outra esquecida no copo de Whisky (a combinação perfeita de todos os seus vícios). A cinza tomava conta do cigarro e os seus dedos deram dois pequenos toques mecânicos retirando o excesso para o cinzeiro de vidro, repleto de vestígios de outras horas e cigarros mortos. Levou novamente o cigarro à boca seca inalando com prazer o fumo e absorvendo todo o alcatrão e nicotina estimulante. Num suspiro deixou escapar o fumo numa nuvem entrecortada que o envolveu num abraço que deveria ser seu. Desolada com transparência a que era votada, recuou lentamente chocando com a estatueta de mármore. Um olhar irado fulminou-a com uma agressividade cortante de onde saíram palavras afiadas «-És mesmo desastrada, vai dormir.» Correu para o quarto, sem saber se fugia com medo de ser avassalada pela avalanche de lágrimas que se aproximava, se das farpas aguçadas daquela voz. Atirou-se para a cama, mergulhou os soluços que rebentavam na almofada e chorou… chorou pelos sonhos que nunca chegou a concretizar, por todos aqueles que se perderam, pela presença de um homem na sua vida que transformara num estranho, por tudo aquilo que abdicou em prol de uma história de amor. Perguntava a cada lágrima onde é que tinha errado, onde foi que o amor se transformou em indiferença, e quando é que de bestial passou a besta. A fonte das lágrimas secou no momento em que a exaustão se apoderou do trapo velho a que chamava corpo e adormeceu. Mais tarde também ele se entregou ao descanso de uns lençóis macios. Aproximou-se… devagarinho… lentamente… tentando, sem que desse por isso, absorver-lhe o calor. Olhou-a envergonhado, arrependido, e admirou uma vez mais a sua beleza. Deixou que o seu nariz, o perfume que brotava do seu corpo, autorizou os lábios a tocarem a sua boca levemente, numa carícia terna de quem quer dar mais e não sabe como, e sem dar autorização espaçou do mais íntimo de si um «-Desculpa». Os seus sentidos tinham-na avisado que ele chegara à cama, mas como não queria discutir uma vez mais, fingiu que dormia. Sentiu que o seu corpo frio a procurava, desejou ter correspondido ao seu beijo, mas os seus gestos tinham-na abandonado e não lhe obedeciam. Aquele pedido de desculpas apanhara-a incauta, acontecimento inédito, único, cuja probabilidade de se repetir era uma num milhão. O pouco que lhe dava era tanto, na vida qualquer coisa sabe melhor quando se sente a falta, por isso sorriu e rezou baixinho para que ao acordar, o homem que estava deitado ao seu lado, fosse o mesmo com que sonhava todas as noites, o mesmo que um dia conheceu, o mesmo que um dia a amou.



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Sábado, 26 de Setembro de 2009
Whitney Houston

 

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Recentemente voltou, e ainda bem, a falar-se de Whitney Houston. As notícias dos últimos anos que ligavam o seu nome à toxicodependência foram sobrepostas pela sua visita ao programa da Oprah, onde tentou reabilitar a sua imagem e reconquistar o afecto e o carinho de todos aqueles que um dia gostaram dela. Já li que a 31 de Agosto, nos Estados Unidos, foi lançado o seu último álbum, mas ao que parece ainda não chegou a Portugal. Eu confesso-me uma grande admiradora da sua voz e das suas músicas. Olho para trás e lembro-me de cantar numa festa da escola aquele que era um hino às crianças The Greatest Love of All. Recordo-me de dançar nas matinés da Fame ao som de I Wanna Dance Whit Somebody (Who Loves Me). Cantei com as minhas amigas o Count On Me, cantarolei o How Will I Know quando ainda menina me interrogavava como é que eu saberia se aquela era a pessoa certa para mim, e por fim, passei a cantar I Will Always Love You quando a encontrei. Hoje, serve de banda sonora da minha vida os temas Didn’t We All Most Have It All e Where The Broken Hearts Go… 


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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009
Pantufinha Aniversariante

 

 

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Meu amor:
Hoje é sem dúvida um dos dias mais especiais do ano, mais especiais da minha vida. Faz hoje precisamente nove anos que decidiste fazer as malas, deixar para trás a acomodação apertada e escura que era a minha barriga e vir partilhar connosco a tua vida. Cada 25 de Setembro é um recordar daquele dia magnífico em que te pude tocar, abraçar, beijar pela primeira vez. O teu nascimento veio trazer a toda a nossa família mais luz, mais alegria, mais amor. Foste o primeiro filho, primeiro neto, primeiro sobrinho, primeiro afilhado… tudo à tua volta se tornou mais bonito e especial, apenas porque existias. Sabes, tenho saudades daqueles primeiros meses, em que te colocava no meu colo, sentia o teu calor, o teu cheiro a bebé lavadinho. Tenho saudades de te ter no meu peito a recolher o néctar que servia para alimentar a tua vida, e dar significado à minha. Tenho saudades de te sentir meu, de te sentir uma parte do meu ser, o melhor que havia em mim. «-Gosto tanto de ti meu amor», todas as noites te segredo ao ouvido, quando vou aconchegar-te a roupa, antes de também eu ir dormir. E fico deitada ao teu lado a tentar desvendar os teus sonhos e segredos, a desejar que no meio das tuas brincadeiras com anjos, também haja espaço para mim. Ainda continuas a ter bochechas quentinhas, ainda tens aroma de menino acabadinho de nascer. Ainda, e sempre, olho para ti como um milagre, como um presente que Deus me deu, em nome de algo muito bom que já devo ter feito nesta vida. Neste dia de aniversário quero dizer-te que tu, e o mano, ocupam a maior área do meu coração, aquela que é a mais pura, a mais bela, a mais singela. Quero que entendas que tudo o que faço é sempre pensando em vocês, na esperança de fazer o melhor possível. Sabes, as mães também se enganam, cometem erros e têm realmente a mania que fazem e dizem aquilo que é melhor para os filhos, mas não é verdade… Desculpa… todas aquelas vezes em que me esqueço que ainda és menino e que te exijo que te portes como um homem. Desculpa por nem sempre teres a minha mão por perto quando precisas atravessar um caminho. Lamento por não ser sempre o meu rosto que vês ao acordar, por não saber jogar à bola com a destreza de um profissional e por não conhecer de cor os nomes dos teus Gormitis e Pokémons. Desculpa também por te querer calçar sapatos quando preferes sapatilhas, por insistir nas camisas quando queres t’shirts, por ralhar sempre que a tabuada não está certa… Quando olho para ti observo o ser humano extraordinário que és, sinto sempre que tenho muito a aprender contigo. Neste dia do teu aniversário, quero desejar-te uma vida repleta de amor (na dimensão daquele que sinto por ti), quero desejar-te sol para iluminar todas as tuas brincadeiras, pinguinhos de chuva para fazer florescer grandes amizades e quero desejar que todas as tuas conquistas sejam feitas com a mesma determinação e sucesso com que os teus pontapés fazem a bola entrar na baliza. Desejo ainda que do teu corpo transborde de saúde, que dos teus olhos caiam apenas lágrimas de felicidade e que a vida te ame tanto como eu. Num dia como o de hoje, tenho vontade de te devolver à minha barriga e recomeçar tudo outra vez… Amo-te, Pantufinha, feliz aniversário.
 

 



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Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009
Ingrediente Secreto

 

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A Madalena tem tudo para ser feliz, é invejada pelas amigas e inimigas porque a sua vida é provavelmente aquela que mais se aproxima da perfeição. Todas as mulheres à sua volta sabem disso, todas… menos a própria. Às vezes penso que é perfeita demais para ser verdade. Está casada há 7 anos com o Jorge e tem dois filhos adoráveis. Quando passeiam pela cidade é impossível deixar de os observar: o carro sempre a brilhar, os filhos imaculados e eles sempre de mãos dadas, com sorrisos cúmplices. No jantar da empresa a Madalena, em tom de desabafo, referiu que tem estado a atravessar uma crise existencial. Não sabe se é a espada aziaga do ano 7 sob o seu casamento, se está alguma coisa errada com ela, ou se deixou de amar o marido. Com um sorriso nervoso imitou o anúncio dos Danoninho dizendo «-Falta-me um bocadinho assim…» e o seu indicador e o polegar abriram-se a 5 cms de distância, lembrando-nos o anúncio publicitário do pequeno iogurte. Fui para casa a pensar no que significarão esses centímetros de vida que a deixam tão insatisfeita. O Jorge é um marido excepcional. Ele ajuda, em casa apesar da esposa não achar o suficiente; ele adora-a mas ela não quer estar no pedestal, quer isso sim, estar ao lado dele: na mesa, na cama, na vida. O Jorge oferece, fora das datas festivas presentes generosos ,(ao contrário da maioria das mulheres que apenas os recebe no aniversário e Natal) mas nunca é bem aquilo que ela deseja; é um cozinheiro razoável que se desenvencilha sempre que a urgência aperta  mas ela queria um Chef. Ele tem um sentido de humor fantástico que não me parece que ela valorize e, segundo as suas palavras, é um “amante carinhoso” (aqui não sei bem o que é que ela quer, ou que defeito lhe aponta). Como pai não há melhor, vemo-lo com frequência a levar as crianças à escola e às suas actividades extra-curriculares, no médico sempre que é preciso ou no parque infantil sem que a disponibilidade da agenda lhe permite. Confesso que não a entendo mas o que raio é que lhe falta? Adrenalina? Paixão? O que é que acontece aos casamentos à medida que o tempo passa por eles? Qual é o segredo secreto, a magia que faz um casamento resultar? «-Amor!» afirmarão muitos, nada sobrevive sem ele, mas eu já vi pessoas que se amavam muito e que não conseguiram ser felizes. «-Respeito» dirão outros mas também já vi casais que se respeitavam e que não foi por isso que deixaram de se divorciar. «-Sexo!» diz o meu primo Fernando para quem o prazer é o verdadeiro néctar da vida. Um dia destes encontrei-o no Shopping e aproveitámos para tomar um café. Há meses que não nos víamos. Está casado há 17 anos, fez um daqueles casamentos que aos olhos da família e dos amigos pouco iria durar. O que é certo é que contra ventos e marés eles continuam juntos e, aparentemente, estão bem e recomendam-se. Perguntei-lhe pela Beta e respondeu com um sorriso iluminado «-Está gorda, chata e a ficar velha». Não consigo deixar de sorrir e aproveito a oportunidade para lhe perguntar qual o segredo secreto da felicidade a dois. Foi aí que ele me confidenciou com o seu ar maroto que é o sexo. Não estava nada à espera daquela resposta e devo ter feito uma expressão de incredulidade pois ele aproveitou para se justificar. Disse-me que as discussões estão presentes no dia-a-dia, que se zangam com frequência, que são muito diferentes, que implicam por tudo e por nada, mas que ao chegar ao vale dos lençóis todas as diferenças se atenuam, todas as divergências desaparecem, todo o amor que existe entre eles fala mais alto. Diz que não gosta do feitio dela, mas que adora o o seu corpo, que não suporta a sua desarrumação mas que vibra com a sensualidade que emana, que torce ao nariz à forma como super-protectora como trata os filhos e a ele, mas vai ao céu e volta sempre que fazem amor. Será?!? É possível que o sexo seja bom o suficiente para suportar tudo o que um casal não gosta um no outro, ou que seja mau o suficiente capaz de destruir tudo o que existe de bom entre elas?

 



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Terça-feira, 15 de Setembro de 2009
O que as Mulheres Querem

A esta eterna questão, da parte que me toca, respondo com o vídeo de Leonard Cohen. Basta aprender a letra e cantá-la aos nossos ouvidos (de preferência seja honesto e já agora, cante em Português).

 

 



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Domingo, 30 de Agosto de 2009
Lágrimas de Marta

 

 

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«-O tempo passa e não consigo aceitar.» diz Marta com um fio de prata a deslizar-lhe pelo rosto. Já passaram dois anos desde que assinou os papéis do divórcio, mas para o seu coração, que não conhece relógios nem estações, parece que foi ontem. Nelson foi o primeiro namorado, com ele idealizou viver a vida que só é possível nos contos de fadas. Casou, e rapidamente percebeu que a sua existência teria muito mais de Gata Borralheira do que propriamente de Cinderela e com o passar dos anos o seu olhar perdeu completamente o brilho. Os conflitos aumentaram, as discussões generalizaram-se e um dia, de comum acordo, decidiram que a felicidade de cada um se fazia em estradas diferentes. Durante muito tempo Marta sentiu-se tranquila, achando que tinha tomado a decisão certa. Mas o seu mundo voltou ruiu quando o ex-marido decidiu refazer a sua vida e voltou a casar. Chorou com o orgulho ferido no dia do seu casamento, sofre compulsivamente sempre que a filha vai passar os fins-de-semana com o pai, sangra da alma quando ela volta feliz cheia de novidades sobre o pai e a nova mulher dele. Neste final de Verão a pequena Ana tem estado de férias com a nova família e Marta chora ao telefone, diz à filha que a vida sem ela não tem graça e, sem se dar conta disso, coloca nos ombros de uma criança de 6 anos o peso de saber que a sua alegria origina a tristeza da mãe. «-Estás a ser infantil, mesquinha e egoísta» digo-lhe com frieza para ver se a desperto do sonambulismo em que se encontra. Não responde, mas conheço-a para perceber que “Quem cala consente”. Marta sabe que a nossa amizade é forte o suficiente para me deixar à vontade para lhe dizer não aquilo que gostaria de ouvir, mas sim, aquilo que realmente tem de escutar. «-Ainda o amas?» pergunto no intuito de perceber o que vai na sua cabeça, «-Não sei, só sei que ele está feliz e eu não estou, só sei que não encontro ninguém de jeito e ele encontrou, só sei que a minha filha adora a mulher do pai e tenho medo de a perder…» E as lamentações não têm fim. Oiço a sua voz a baixar o volume pois o meu pensamento solta-se e penso que realmente as mulheres são estranhas, são exigentes, querem sempre aquilo que não têm, sonham com o impossível e são difíceis de contentar. Dou-lhe um abraço… terno, apertado e tento aliviar o fardo que por auto-determinação carrega. Recordo-lhe que a decisão de se divorciar partiu dela, que nenhuma mulher irá ocupar no coração da filha, o lugar que ela ocupa e que provavelmente o ex-marido ainda nutrirá algum carinho por ela. Mas friamente digo-lhe que está a fazer mal ao marido invejando a sua felicidade, faz mal à filha porque a obriga a sentir-se culpada pela alegria que tem e, principalmente, faz mal a ela própria porque não aceita que avida é feita de mudanças, porque ainda acredita que para ser feliz precisa de um homem ao seu lado, porque concentra toda a sua energia nas recordações do passado, porque ainda não percebeu que a felicidade é feita de pequenos momentos especiais, e não é um estado perene, e que no dia em que se sinta bem com ela própria e recupere o brilho dos seus olhos, tudo na sua vida fluirá de uma forma muito diferente.

 



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Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009
Sempre... para sempre

 

 

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Há amor amigo
Amor rebelde
Amor antigo
Amor de pele

Há amor tão longe
Amor distante
Amor de olhos
Amor de amante

Há amor de inverno
Amor de verão
Amor que rouba
Como um ladrão

Há amor passageiro
Amor não amado
Amor que aparece
Amor descartado

Há amor despido
Amor ausente
Amor de corpo
E sangue, bem quente

Há amor adulto
Amor pensado
Amor sem insulto
Mas nunca, nunca tocado

Há amor secreto
De cheiro intenso
Amor tão próximo
Amor de incenso

Há amor que mata
Amor que mente
Amor que nada, mas nada
Te faz contente, me faz contente

Há amor tão fraco
Amor não assumido
Amor de quarto
Que faz sentido

Há amor eterno
Sem nunca, talvez
Amor tão certo
Que acaba de vez

Há amor de certezas
Que não trará dor
Amor que afinal
É amor,
Sem amor

O amor é tudo,
Tudo isto
E nada disto
Para tanta gente

É acabar de maneira igual
E recomeçar
Um amor diferente
Sempre, para sempre
Para sempre

 

              Dona Maria 

 

 



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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009
Música Escondida no Fundo do Baú...

I Feel: Nostálgica

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Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
Quando a Chuva Passar


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Quinta-feira, 14 de Maio de 2009
Hoje Acordei a Pensar em TI...

  

 

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… no que fomos, no que vivemos, naquilo em que nos tornámos. Vi a pessoa por quem um dia me apaixonei, com os mesmos olhos com que um dia a amara. Lá estavam todos os pormenores, todas aquelas qualidades que aos olhos inocentes de quem gosta parecem sempre fascinantes, todos aqueles grandes obstáculos, que aos olhos de quem ama, parecem sempre pequenos. Fechei os olhos… para recordar o teu colo, onde me aninhava como um botão de rosa, senti a tua mão a acariciar-me os anéis do cabelo, os teus lábios macios a deslizar sobre a minha pele e ali ficava eu com as pétalas ao vento. Voltei a sentir tudo o que sentia quando me abraçavas – aquela sensação de que o mundo podia ruir lá fora que nada atormentaria o nosso amor aqui dentro. Hoje acordei a pensar em ti… nos teus hábitos, nas tuas rotinas que conheço de olhos vendados, a forma como saltas da cama, como fazes a barba, como retires as gotas de água da tua pele macia, a forma como te moves para vestir o teu corpo, o ritual da torrada molhada no leite, a forma como me beijavas ao dizer «-Bom dia!». Hoje acordei a pensar em ti… nos pequenos nadas que se tornaram diferenças colossais entre nós, nas pequenas insignificâncias que de tão pequenas que foram, minaram toda a grandeza de um grande amor. O que faríamos se o ponteiro do relógio voltasse atrás? Até onde o faríamos recuar? Quais os momentos que apagaríamos, quais aqueles que viveríamos mais intensamente? Quais os momentos que deixámos por viver? Olho para o meu relógio que marca um tempo tão distante do nosso tempo, esqueço-me dos minutos, dos segundos, deveres e compromissos. Fecho novamente os olhos… volto a ser um botão de rosa, hoje sem cor, sem brilho, amachucada pelos dias insanos e voo até ti para me aninhar e proteger no colo.  

 

 

 


VOCE NAO ME ENSINOU A TE ESQUECER - CAETANO VELOSO



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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009
Mulher Águia

 

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A vida é o maior desafio que podemos enfrentar, o desporto mais radical que iremos praticar, o percurso mais entusiástico a desenvolver. Cada um de nós vive-a o melhor que pode, o melhor que sabe, sempre na procura alquímica da felicidade. Pergunto-me como reagir perante as dificuldades? Como levantar do chão sempre que tropeçamos? Como seguir em frente com todas as forças nos impulsionam para trás? Questiono-me ainda qual será a atitude mais sensata perante a nossa existência – lutar estoicamente pelas coisas que desejamos, ou aceitar abençoadamente tudo o que o Universo nos oferece? Estava eu perdida nestas questões quando me lembrei da águia. A Águia é a ave que possui a maior longevidade de toda a sua espécie. Em alguns casos pode viver até aos 70 anos mas para que possa chegar a essa idade, por volta dos 40 anos, ela tem de tomar uma dolorosa e difícil decisão. Com essa idade as unhas são compridas e flexíveis, o que já não lhe permite agarrar suas presas, das quais necessita para se alimentar, o bico apresenta-se alongado, pontiagudo e curvado na direcção do seu peito. As suas asas estão envelhecidas e pesadas em função da grossura das penas, e voar torna-se uma tarefa muito difícil. Neste momento da sua vida, a águia só tem duas alternativas: morrer ou enfrentar um doloroso processo de renovação que irá durar cerca de 150 dias. Este processo consiste em voar para o alto de uma montanha e recolher-se num ninho próximo de um paredão, onde ela não necessite voar. Instalada nesse lugar, irá bater com o bico na parede até que ele caia. Depois aguarda pacientemente que lhe nasça outro, com o qual vai arrancar as unhas. Quando as unhas novas começam a nascer, ela arranca as velhas penas e só depois, após  cinco meses é que se lança para o voo de renovação, e prepara-se então viver mais 30 anos. A Natureza tem muito para nos ensinar e esta história é um bom exemplo disso. Na nossa vida, temos muitas vezes que saber que chegou a hora de nos resguardarmos e iniciarmos um longo processo de renovação. Não é um processo fácil, não é um processo pacífico, mas para que continuemos a abrir as nossas asas e possamos voar no voo de vitória, saibamos libertarmo-nos de sentimentos, pensamentos, recordações e pessoas que nos causam dor. Saber deixar o passado, ficar realmente enterrado no passado é estarmos prontas para o voo da vida e cumprirmos, em pleno, a pessoa que viemos ser à Terra. Saibmos ser Mulher-Águia.

 



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Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
Nasa Capta Mão de Deus

A mão cósmica captada pela NASA

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Hand of God -  mão de Deus – foi desta forma baptizada pela Nasa, num observatório em Chandra a imagem que aqui podemos ver. Com 150 anos-luz de comprimento, a nebulosa registada pelo telescópio apresenta uma espécie de "dedos" bem definidos e parece estar a agarrar o universo. Segundo a agência espacial, a imagem fantasmagórica em tons de azul foi causada por um "pulsar", isto é, uma estrela muito rápida que liberta no espaço energia e matéria, acabando por causar formações que fazem as delícias da imaginação do ser humano. A gigante mão cósmica tem pelo menos 1700 anos de idade, sendo que a nebulosa é formada por inúmeros electrões e iões, avança uma notícia da CNN. As diferentes cores na imagem representam intensidades de energia distintas: a azul é a mais alta, seguida da verde e por último a vermelha. Numa época em que se fala tanto de crise, de perda de valores fundamentais, de falta de fé, de ausência de um trilho… é bom saber que a mão de Deus nos protege…

 



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Quarta-feira, 25 de Março de 2009
Há Vozes Fantásticas, Não Há?

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Sexta-feira, 13 de Março de 2009
Despedida Prematura

 

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Olá meninos (as). Desde Setembro que temia a chegada deste dia e vocês também sabiam que eu estava apenas a substituir a Professora P. e que mais tarde ou mais cedo me iria embora. Estes últimos dias de aulas foram extraordinariamente tristes e difíceis para mim. Deixo para trás uma Escola onde fui bem recebida, despeço-me de colegas e de novos amigos… e o pior de tudo… digo adeus a cada um dos "meus meninos". No meio desta minha angústia, tenho lamentado a profissão que escolhi, tenho-me perguntado se vale a pena tantos sacrifícios por uma profissão que não é minimamente reconhecida ou valorizada, se vale a pena continuar a insistir em concretizar este sonho. Quero pedir desculpa se não correspondi às vossas expectativas, lamentar se não consegui fazer-vos gostar da minha disciplina, se não fui capaz de ensinar como vocês gostariam de aprender. Sei que não agradei a “Gregos e a Troianos”, que vocês não gostaram dos ralhetes que vos dei, mas acreditem, a intenção foi a melhor possível, acima de tudo tentei sensibilizar-vos que vivemos tempos difíceis onde só os melhores triunfam e que se vocês decidirem preguiçar agora, vão pagar uma factura muito cara daqui a uns anos. Eu acredito que a vossa geração fará a diferença, confio na vossa sensibilidade e sabedoria para construírem uma sociedade melhor e foi por isso que fui sempre tão exigente. Quero também agradecer-vos a forma carinhosa com que sempre me trataram, os sorrisos, os olhares cúmplices e principalmente, agradeço-vos tudo o que aprendi convosco. A maior lição que vocês me ensinaram, aprendi-a ao longo desta semana, através das múltiplas manifestações de afecto - cada uma das vossas lágrimas, dos vossos abraços e dos vossos mimos, ensino-me que não tenho de ter medo do futuro, que não devo desistir da profissão que escolhi, pois se vocês, que são aqueles que melhor conhecem e têm condições para avaliar o meu trabalho me dizem que fui uma das melhores professoras que tiveram, que vão ter saudades minhas e que gostam de mim… então fico com a certeza que estou no meu caminho e que vale a pena qualquer sacrifício para continuar a ensinar. Peço-vos ainda que recebam a Professora P. com a mesma alegria e com o mesmo carinho com que me receberam. Dêem-lhe a oportunidade de vos demonstrar que é uma boa professora, sejam solitários com o facto de a minha colega ter estado afastada do ensino durante três anos, passou por momentos difíceis e dolorosos enquanto este ausente, mas que agora tem muita vontade de ultrapassar todas as barreiras e recuperar o tempo perdido. A P. não me foi substituir a mim… fui eu que a substituí a ela… o horário não me pertencia… era dela, por isso, está apenas a ser restaurada a ordem natural das coisas e cabe a cada um de nós aceitar. Também ela ficou triste quando saiu da nossa sala e viu que vocês estavam a chorar por causa da minha partida e, de alguma forma, isso causa-lhe uma sensação de mal-estar. Assim sendo, aqui fica o meu pedido para que sejam para a vossa nova professora de Português o que sempre foram para mim: Pessoas Fantásticas. 10ºA, 10ºB, 10ºC, 10ºD1, 10ºD2, 10ºE da Escola Secundária do Cartaxo vocês são os melhores alunos que um professor pode ter. Beijinho muito grande e até sempre.
  


Deixa O Mundo Girar - Polo Norte


Music: Polo Norte - "Deixa o Mundo Girar"

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Domingo, 15 de Fevereiro de 2009
Serenata

Miscelânea Seresteira

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Dormia serenamente quando doces acordes entraram no seu quarto naquela madrugada de Maio. Devagarinho os seus sentidos começaram a despertar para o trinar das guitarras, para o afinado das vozes. Entre elas destacava-se a de alguém que de coração aberto e alma ao vento cantava Donzela que Sempre Amarei. Sob o testemunho de um manto estrelado, algures debaixo de uma varanda antiga na António José d’Almeida reconheceu incrédula um Trovador acompanhado pelos fiéis súbditos da Tuna de Medicina. Ele elevou o rosto e percebeu que atrás da cortina se escondia um vulto cujas formas a faziam adivinhar. Na mesma rua, uma pincelada aqui, outra pincelada ali, acendiam-se as luzes das casas, onde os curiosos faziam questão de partilhar o momento e testemunhar aquela prova de amor. A música cessou, vestiu o robe, roubou uma rosa, e desceu descalça as escadas com o coração descompassado e as lágrimas nos olhos. Abriu a porta e à sua frente, tão branco como a luz da lua que os espreitava, com a voz embargada o Trovador balbuciou «- Não queria que saísses de Coimbra sem saberes que te amo…». A brisa incauta acariciou os anéis dos seus caracóis louros, brincou com os rasgões da capa e batina do estudante e gravou para sempre nas suas memórias a magia daquele momento. Os anos passaram… muitos anos passaram. «-Que é feito do Trovador e da Musa que o inspirou?» - perguntam os leitores intrigados. Seguiu cada um a sua vida… terminaram o curso, seguiram uma bifurcação diferente em Celas, arranjaram um emprego que mantêm, namoraram, casaram, tiveram filhos. Nunca mais se viram, nunca viveram este amor nem tiveram necessidade disso. Guardaram um do outro a doçura das paixões platónicas, a magia de uma história de amor por viver, o doce mistério do “O que é que teria acontecido se…”. Em madrugadas tranquilas, no terraço de um hospital qualquer, ele acende um cigarro, olha nos olhos da Lua e volta a sentir-se um adolescente. Fecha os olhos e ainda vê os seus caracóis espelhados nas estrelas acompanhado pelo seu lindo sorriso de menina-mulher. Ela, quando abre o baú das recordações, deixa-se invadir pela melodia daquela serenata e guarda com ternura o brilho dos olhos negros do Trovador e a sua voz quente e rouca. Guardou-o no seu coração, na mesma prateleira onde arrumou os Príncipes Encantados que idealizou na infância porque as quimeras são mesmo assim, só são especiais porque são irrealizáveis, só são perfeitas porque nunca se concretizam, só dão prazer porque não são reais.

 



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Sábado, 7 de Fevereiro de 2009
Memórias dos Pantufinhas Emprestados

 

Criança triste nos braços da mãe

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Pedi aos meus alunos na última aula que elaborassem uma memória a propósito do discurso autobiográfico que estou a leccionar. Sugeri-lhes que fizessem um texto sobre o melhor momento das suas vidas, ou o pior, ou ainda o mais divertido. Não havia restrições, não havia limites, apenas eles, os seus sentimentos, a folha de papel e a caneta. Disse-lhes ainda que manteria sigilosos os trabalhos, se assim o desejassem. O objectivo desta actividade era fazer com que aplicassem as características que tinham aprendido sobre o texto memorialístico, entrassem nos seus corações, transmitissem os seus sentimentos e analisassem a importância do acontecimento escolhido nas suas vidas. Nada me preparou para o que iria ler a seguir… Levei os trabalhos para casa e li aqueles que diziam “confidencial”. Ainda me custa a acreditar no que li… Os meus Pantufinhas Emprestados, apesar de terem acabado de entrar na adolescência, são em grande número marcados pelo sofrimento (que eu desconhecia por completo) e têm uma alma extraordinariamente sensível (mas isso eu já sabia). Alguns deles exorcizaram os seus maiores desgostos de uma forma que nunca me tinha sido dada a ler. Estes miúdos desabafaram sobre a morte de alguém que lhes foi muito querido e sobre doenças que teimam assombrar os seus lares. Uns relataram a tristeza que sentiram quando os pais se divorciaram e que também os invadiu quando voltaram a constituir uma nova família. Outros descreveram os maus tratos a que foram sujeitos por parte dos progenitores, e a vida familiar marcada pela violência doméstica, pelas agressões e espancamentos que vitimam as mães. A Matilde recordou episódios em que o pai espancava mãe na presença dos filhos, e quando os seus ataques de loucura eram intensos, acabava também por estender a violência a ela e aos irmãos. Li uma história de uma aluna que recordou uma situação vivida aos 5 anos quando assistiu ao abuso sexual de uma outra criança, que na sequência desse acto foi encontrada morta. Fiquei com o coração apertado de tantas desgraças que li. Na aula de hoje era suposto eu ler os trabalhos, mas apenas dos alunos cujos textos não fossem “confidenciais”. Tencionava corrigi-los a nível da forma e do conteúdo e tecer considerações sobre os aspectos positivos e aqueles que precisavam ser melhorados. A turma estava muito receptiva à actividade, as memórias que ia lendo falavam dos mais variados assuntos: as Verões inesquecíveis que já tinham vivido, a cumplicidade com os amigos, as tropelias da infância, a primeira bicicleta, o primeiro beijo. No meio dos papéis surgiu-me o trabalho da Teresa cujo texto me fizera chorar na noite anterior e informei os colegas que não o iria apresentar. Apesar do “confidencial” escrito na sua folha de papel, a aluna pediu-me para o ler. Senti a voz a abandonar-me e o fio que restou a tremer. Lentamente começo a leitura da memória do funeral da sua mãe: o som do rebate dos sinos, a cova escura para receber o seu corpo, o choro de desespero dos familiares mais próximos. Doeu-me ler a tristeza que sentia por perder a mãe, mas também a amargura por perder a juventude em prol do apoio que tem de dar ao pai e aos irmãos. A Teresa cuida da casa e da família, herdou da mãe a responsabilidade de dar sentido e continuidade à vida daqueles que a rodeiam. Em plena aula, as lágrimas desceram silenciosas pelo meu rosto… não as consegui esconder. Depois disto, também o Lourenço me pediu para ler o seu texto. Em duas tristes páginas este aluno descreve a primeira coisa que faz ao acordar - beijar a fotografia que se encontra perto da cama. O rosto que recebe o beijo é o da sua mãe também falecida. Linha a linha descreve a forma como recebeu a notícia, a falta que a presença materna lhe faz, as saudades que sente. «-Como vou crescer sem o seu abraço, sem os seus beijos sem os miminhos da minha mãe?»  perguntava ele em pequenito. Termina com a ideia que é nos sonhos que a encontra e que a sente mais próxima. As lágrimas continuavam a deslizar pelo meu rosto e aquele texto singelo contagiou toda a turma, não só o Lourenço chorava, como a grande maioria dos seus amigos se emocionaram com a descrição da sua dor. Um outro trabalho que me tocou profundamente foi o do Alberto que explicava a forma como a Ritalina alterou a sua vida, lembrava-se das alucinações que sentiu aquando da primeira toma, da estranheza de emoções que o medicamento lhe desencadeou. O que mais me sensibilizou naquela leitura foi o facto de ele reflectir sobre o facto de se sentir viciado: a ressaca quando não a toma, o corpo a acusar a necessidade e a pedir-lhe mais. Interrogava-se sobre se deveria ou não continuar medicado, se não lhe estaria a fazer mais mal que bem, se não seria melhor procurar noutro sentido a solução para a agitação do seu corpo e da sua mente. Quando a campainha tocou, tinha o coração apertado mas transbordante de afecto por estes Pantufinhas Emprestados que crescem cada vez mais infelizes e sem um farol que os guie. No livro das minhas memórias também fica registada esta aula, em que estivemos tão próximos. Oxalá daqui a uns anos também eu faça parte das memórias deles, e que sejam boas memórias. É isto que sou, é isto que faço. Ser professora faz parte de mim, da minha alma, da minha essência.

(todos os nomes utilizados no post são fictícios)

 

 


How Could an Angel Break My Heart - Toni Braxton

 



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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
Segunda Oportunidade

 

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Miguel e a Teresa reconciliaram-se. Esta era a notícia do dia que a Joana, o melhor meio de comunicação desde a portaria ao arquivo, se esforçava por dar a conhecer a todos os colegas do escritório. Baixo, muito baixinho, dizia-o entre dentes, não fossem os visados ouvir. A bombástica notícia apanhou desprevenidas todas aquelas pessoas que adoram estar a par da vida alheia. «-Como é que é possível?», «- Ela não tem vergonha nenhuma na cara», «-Ele é um grande banana», «-Só o fizeram por causa das miúdas» eram os mimos que se ouviam nos corredores. Todo aquele interesse mesquinho de opinar e participar no fórum da maledicência só se justifica pela pitada de sal que aquilo trazia às suas patéticas vidas. Mais tarde, mumificada na IC19, o Miguel e a Teresa passearam pelo meu pensamento, tão lentamente como o trânsito naquele fim de tarde. Conheceram-se na adolescência numa daquelas festas de garagem onde às escondidas se fumava SG Ventil, bebia Super Bock e se trocavam os primeiro beijos. Sobreviveram à distância imposta pela faculdade, ela no Porto, ele em Lisboa, casaram assim que terminaram o curso, arrastaram-se pelo escritório com os sinais de desgaste com nascimento das gémeas, lutaram lado a lado com as dívidas à banca que Miguel contraiu, mas não sobreviveram ao desfalecer da paixão, à presença da rotina. Os anos que se seguiram, assistiram à batalha campal do divórcio. Se este casal pertencesse ao Jet Set teriam feito correr rios de tinta nas páginas das revistas cor-de-rosa, mas não pertenciam, situavam-se apenas num universo, que é dito como normal, e a que cada um de nós está longe de dizer que jamais irá pertencer. Como amiga do casal dei comigo no meio dos desabafos e agressões. O objectivo era ver quem é que feria mais o outro, quem é que denegria mais a imagem do ex companheiro. Ela acusava-o de ser preguiçoso e de ter arruinado o património da família com os seus gostos de novo rico, ele retribuía o galhardete dizendo que ela estoirava o dinheiro em roupa e em clínicas de estética para minimizar os estragos que fazia à mesa; ela dizia que ele passava as noites no sofá ou na cama a ressonar, ele dizia que ela passava a noite a ver telenovelas e que chegava à cama sempre com dores de cabeça; ela censurava-o por ser egoísta e não lhe dar prazer, ele desprezava-a dizendo que era frígida; ela queria o Chalé de Andorra, a casa na Quinta do Lago e o descapotável, ele respondia que a tirou da miséria e que ia sair de casa com a roupa adquirida na feira de Carcavelos que trazia no dia em que a conheceu; ela queria a custódia das filhas e uma pensão milionária, ele disse que não tinha tempo para cuidar das gémeas e dava-lhe uma pensão irrisória. Quando finalmente declararam tréguas um ao outro ele passou a sair com todas as mulheres maduras que o fascinavam, ela fez uma ronda pelos sub 21 que encontrava nas saturday nigth fever. Afastaram-se e construíram novos caminhos para as suas vidas. Cinco anos passaram, as gémeas tornaram-se um pretexto para a aproximação. Havia sempre uma prova de natação ou um torneio de basquetebol e, primeiro com algum desconforto, depois com uma clara alegria, começaram a sentar-se lado a lado nas bancadas do clube desportivo onde gritavam e torciam pelas filhas. Pelo canto do olho, Miguel olhava Teresa e pensava que o divórcio só lhe fizera bem. Estava mais magra, mais bonita, vestia-se com maior elegância. Teresa sentia o olhar dele sobre o seu corpo e também lhe reconhecia os benefícios da separação: músculos mais firmes esculpidos pelas corridas matinais no parque da cidade, o cabelo mais curto e pincelado por uns laivos grisalhos, a roupa desportiva que lhe dava um ar menos formal. Miguel e Teresa… sorrio. Voltam aos meus ouvidos os mexericos do escritório nesta manhã. Ao contrário do que dizem, esta relação tem tudo para dar certo. Não é só pelo facto de reconhecerem, depois de tudo o que viveram, que ainda se amam, mas é o facto do que aprenderam longe um do outro e o que cresceram como pessoas, que lhes vai permitir construir uma relação nova. Ele aprendeu a trocar o jornal pela actividade física, a substituir a vaidade e o exibicionismo de um carro novo pela tranquilidade de um fim-de-semana a dois perdidos num SPA; ela deixou a televisão e foi esculpir o corpo no ginásio, tomou aspirinas quando tinha realmente dores de cabeça e entregou-se sem pudor ao prazer na cama com o marido. Mas o que me leva a acreditar novamente naqueles dois é o facto de se conhecerem muito bem. Miguel e Teresa reconhecem no outro, os seus valores, as suas qualidades, mas melhor que isso, conhecem-se do avesso, o lado lunar, o que de pior têm para oferecer. O ódio e o amor são sentimentos próximos, um casal que já se amou e que se odiou de seguida, tem fortes probabilidades de ser feliz, quando se voltar a amar.

 



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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009
Entre Mim e Eu

 

 

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Entre mim e eu existia uma criança sonhadora, cheia de maternos afectos e mimos, simultaneamente abundante em ausências e saudades paternas. Dali cresceu a filha que sempre quis agradar, que nunca quis desiludir ninguém, que desejou sempre corresponder às expectativas, honrar os sacrifícios, e hoje há apenas a pessoa que necessita ser aceite e amada, tal como é. Entre mim e eu uma Cinderela de sapatos de salto alto, vestido elegante, pescoço perfumado, caracóis ao vento, e uma Gata Borralheira de pantufas de lã, camisola grosseira de malha, óculos graduados na ponta do nariz e rabo de cavalo a galope. Encontro algures neste invólucro que habito a professora inovadora, atenta às dificuldades e angústias, próxima dos sorrisos, crente que a escola se faz de pessoas e afectos, e a docente rigorosa com os deslizes, implacável com os erros, pouco permissiva com as faltas de educação e incrédula para com tantas reformas e remodelações. Entre mim e eu a esposa perfeita, de casa imaculada, roupa engomada, comida na mesa ao badalar do relógio, tudo isto acompanhado pelo sorriso, pelo beijo à entrada da porta, pela vontade de ser e fazer feliz, e a mulher exausta de ser tão exigente para com ela própria que recusa descansar, por achar que é sinal de fraqueza. Entre mim e eu vive uma a namorada sorridente, senhora do seu nariz, detentora única da sua liberdade, que adora momentos românticos, pequenas surpresas, viver as situações com paixão e a companheira que precisa estar sozinha, fechar-se no casulo para se sentir a ela própria. Entre mim e eu há uma mãe amorosa que se divide em atenções, multiplica em mimos, que se diverte com as brincadeiras, compreende as tristezas, e acima de tudo, dedicada às suas vidas. Mas há também uma progenitora exigente com comportamentos, austera com as birras e rígida com as atitudes. Entre mim e eu vive um ser muito feminino que gosta do que o espelho reflecte, dos centímetros a mais no andar de baixo, dos centímetros a menos no andar de cima, do nariz pequeno, das mãos e pés minúsculos e há um patinho feio, em guerra com a balança, de relações cortadas com doces e gorduras, de olhos esbugalhados perante os Michelin que se acumulam na barriga, as cordas que marcam os cantos do rosto, os fossos que se abrem debaixo dos olhos. Entre mim e eu... tantas certezas, tantas dúvidas, sei apenas que há uma mulher.

 


Essa Miuda - Jorge Palma

 


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