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aspalavrasnuncatedirei

Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

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Há palavras que nunca chegam ao destino...fazem uma longa e amarga travessia pela solidão dos sentidos e morrem na escrita destas crónicas.

Vai onde te leva a ilusão

por aspalavrasnuncatedirei, em 25.07.16

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A maior prova de amor que te dei… foi deixar-te partir…

 

O meu coração esteve desde o primeiro instante de janelas abertas permitindo-te que voasses no momento em que achasses que precisavas de o fazer. Estava convicta que quando ao longe ouvisses as nuvens sussurrar o teu nome isso daria uma vontade gigantesca de percorrer o céu misterioso. Sabia que chegaria o dia em que as caravelas no alto mar te iriam acenar com as cores das aventuras estampadas nas suas velas, suplicando-te que as acompanhasses. Vislumbrava que chegaria a noite em que te deixarias seduzir pelo mágico canto das sereias e que terias o desejo de te perder na sua voz feiticeira. Tinha ainda a certeza que chegaria o momento em que ao olhares o nascer do sol, verias o rosto crestado dos Tuaregues e a voz indecifrável deles ecoaria nas tuas memórias pedindo-te para regressar e que o calor das areias do deserto convidar-te-iam a atravessá-las, perdendo-te nas dunas, mas encontrando-te a ti.

 

Nunca imaginaste que eu tivesse a coragem de te deixar ir, pois não? Jamais pensaste que pudesse abrir o meu peito para que te evaporasses dele, jamais se afigurou no teu pensamento que te iria desalojar de mim, que seria capaz de te afugentar da minha vida, de te apagar do meu corpo, de te fazer dissipar da minha alma. E, acima de tudo, admirou-te o facto de nunca te ter pedido para ficares.

 

Não o fiz por não te amar, muito pelo contrário, foi em nome de tudo o que senti por ti, foi pela intensidade desse sentimento que me habitava, foi porque me corrias nas veias, que me afastei dessa tua senda, te deixei voar rumo ao desconhecido e apenas gemi baixinho num fio de voz doloroso: “ – Vai onde te leva a ilusão”.

 

E tu foste… e voaste… sentiste o vento arrepiante nas asas, o calor sufocante do sol nas plumas de pássaro sombrio, inalaste o aroma da imensidão do céu quando te embrenhaste no mundo à tua frente. Experimentaste assim o desapego que tanto desejavas, deambulaste por esses trilhos plenos de novidade, procurando um novo rumo para os teus dias. Mergulhaste decidido no sal de outros mares, no mel e traiçoeiro canto das sereias e fizeste-te acompanhar de pássaros tão perdidos como tu.

 

E eis que uma incomensurável sensação de vazio, uma dolorosa sensação de perda, se apodera de ti. Jamais tinhas imaginado que, quanto mais te afastavas para longe de mim… mais o amor que deixavas para trás te fazia sentir perto, mais o amor por mim crescia… mais se apoderava de ti a certeza que nunca deverias ter partido.

 

Sabes, ainda bem que foste, só descobrindo o que pensavas que estavas a perder (que valia tão pouco perto do que tínhamos), só mediante a visão de tudo aquilo que abdicaste, te foi possível desvendares que ao meu lado já possuías tudo o que querias.

 

Parece um contrassenso, não parece? Querias tanto ser livre, não estar preso a nada nem a ninguém que não percebeste que a maior liberdade que podias sentir, estava no amor que te dava porque nunca fui um nó na tua vida, apenas me envolvi em ti num laço.

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Texto: Sandra Barbosa

Todos os direitos de autor reservados

Imagem: Retirada da Internet

 

 

- Anda!

por aspalavrasnuncatedirei, em 07.07.16

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-  Anda!

E eu fui, sem saber para onde me levavas, sem me preocupar onde esse caminho, que segui de olhos vendados, me iria conduzir. Apenas fui… porque habitava-me a convicção que iria onde quer que me guiasses, com tudo de bom e de mau que daí pudesse advir.

 

Esta é a minha forma de amar, só acredito no amor assim: baseado numa confiança extrema, determinada, capaz de nos levar ao limite, capaz de nos fazer testar todos as nossas convicções, com capacidade de abalar todas as nossas crenças. Não confio naqueles que amam com «ses», que só se apaixonam «quando», que só se entregam «a menos que», que investem «a não ser que» ou é amor, ou não é, e se não é amor… então não é suficiente!

 

Foi por isso que, quando me olhaste nos olhos e disseste «-Anda» eu dei-te a mão sem vacilar, mesmo sabendo que os caminhos do amor são enigmáticos e ininteligíveis. A senda amorosa é um percurso fantástico: mesmo que saibas de onde vens, mesmo que almejes saber para onde vais, mesmo na posse do conhecimento da pessoa que foste construindo ao longo dos teus dias até chegares aqui, cada vez que a tua vida se entrelaça no destino de alguém, descobres um ser novo dentro de ti, que desconhecias existir até então, e é exatamente por isso que vale a pena perder a segurança de ter os pés no chão para ganhar um palmo acima dele e levitar nas asas do amor.

 

O amor faz-nos maiores, faz-nos imensos e aqueles que amamos são sempre um espelho daquilo que somos: há pessoas que refletem aquilo que temos de melhor e outras são o resultado do nosso lado mais sombrio. Há pessoas que nos acrescentam: em felicidade, em compreensão, em sabedoria, em segurança, em paz interior, em magia e aquelas que nos diminuem: na alegria, no júbilo dos dias, nos sonhos e projetos, naquilo que somos.

 

E foi por isso que quando disseste «-Anda» eu dei-te a mão sem pestanejar e deixei que me levasses e guiasses pelos trilhos que construíste, o meu gesto assertivo foi a forma que encontrei de te dizer «-Sim, vou! Leva-me com tudo o que eu tenho de bom, aceita-me nas minhas fragilidades e faz-me descobrir a mulher que poderei ser ao teu lado eu prometo fazer exatamente o mesmo contigo.»

E é isto que desejo a cada amanhecer, que tu olhes para mim com a convicção que queres ter-me ao teu lado para te acompanhar seja qual for o mapa que leves na mão, seja qual for o destino que temos pela frente e eu quero responder-te afirmativamente com a certeza que é ao teu lado que quero percorrer o meu caminho.

- Anda!

- Vou!

 

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Texto: Sandra Barbosa

Todos os direitos de autor reservados

Imagem: Retirada da Internet

Leva-me de volta a casa...

por aspalavrasnuncatedirei, em 19.06.16

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Olho à minha volta e aparentemente está tudo igual: os quadros nas paredes, os móveis, imóveis, pregados ao chão do tempo, o mesmo livro de selos esquecido em cima da escrivaninha, a tua caixinha de música ao lado, o relógio de sala que vai tiquetaqueando um eco sombrio que escorre pela casa toda, o gato confortavelmente sentado aos pés do teu sofá e o gira-discos a cantar os mesmos clássicos de sempre.

 

Tudo igual… tudo imaculadamente jaz nos lugares de sempre….menos tu…

 

Assalta-me a dor da tua ausência a cada dia que passa de uma forma cada vez mais letal. Foste-me roubada nesse fim da vida quando eu achava que estávamos apenas a começar, foste levada sem que eu tivesse tempo, de pedir ao tempo, só mais um bocadinho, só mais um dia de felicidade, só mais um beijo, só mais uma última dança ao som de Frank Sinatra, contigo nos meus braços a rodopiar as pregas do teu vestido.

 

Na tentativa de que me doas menos, evito folhear os álbuns de fotografias, esquivo-me de retirar com os meus dedos trémulos, os retratos com a tua pose segura, o teu rosto sorridente que um qualquer fotógrafo perpetuou para a eternidade só para aumentar a minha saudade. Eras tão bonita quando te conheci e mantiveste-te assim até ao teu último sopro de vida.

 

Sabes, eu tento…tento diariamente seguir em frente com os meus dias, mentalizo-me a cada acordar que não voltas, até já dei à tua irmã a maioria das tuas coisas que guardei imaculadas durante tanto tempo no roupeiro, mas o colar de pérolas que tanto gostavas e que usaste em todos os nossos momentos especiais da nossa vida em comum, dei-o à Teresinha, achei que ela ia gostar desta herança da avó. Que lhe traga boa sorte, que o use e que brilhe como sempre me iluminaste cada vez que o deitaste sobre o teu pescoço esguio e branco.

 

Também deixei de borrifar com o teu perfume a almofada vazia que dorme ao meu lado. Que tonto que sou, eu sei, mas era só para criar a ilusão que ainda dormias na nossa cama, deitei fora ainda a escova de dentes cor-de-rosa ao lado da minha azul, na casa de banho do nosso quarto. E esvaziei as gavetas onde repousavam pequenos nadas teus que se tornaram tudo. O que me sobra agora no espaço em meu redor, falta em presença dentro da minha alma. Faltas-me tu…

 

Percorro em silêncio cada uma das divisões na casa, deslizo as mãos pelo pó do vazio que se instalou nos móveis, pelas teias de aranha do abandono, na esperança que os meus dedos se transformem em varinhas mágicas e com um gesto de perlimpimpim te tragam de volta a habitar a minha vida. Detenho-me nas fotografias que contam a nossa história, são 40 anos distribuídos em molduras que retratam o tempo das quimeras, dos sonhos cumpridos, dos filhos que brotaram na nossa árvore genealógica, nas primeiras rugas que a vida foi sulcando nos nossos sorrisos e que em cada uma reconheci traço raro de beleza em ti…até nisto foste única, a passagem do tempo pelo teu corpo só serviu para o tornar mais belo aos meus olhos que sempre te amei como se te visse pela primeira vez.

 

Eu sei que a vida se faz de ciclos, tempo para nascer, para plantar, para colher e tempo para morrer mas não sei viver uma vida da qual não fazes parte, não sei viver uma história na qual não entres como personagem, não sei cantar porque tu eras a melodia que me embalava, não sei sorrir porque era de ti que vinha a centelha da alegria.

 

Onde quer que estejas apressa-te em me vir buscar e leva-me de volta a casa.

 

 

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Texto: Sandra Barbosa

Todos os direitos de autor reservados

Imagem: Retirada da Internet

 

Tudo o que não vivemos

por aspalavrasnuncatedirei, em 12.06.16

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Tenho saudades dolorosas de tudo aquilo que não vivi contigo, é estranho, supostamente deveria inflamar-me na nostalgia de tantos momentos mágicos partilhados a dois, mas o que rasga cada página da minha vida, e depois de tanto tempo, é a angústia de tudo aquilo que ficou por viver.

São coisas pequenas e simples que me assaltam no dia-a-dia, que me deixam vazia e despojada de mim, sem saber como te fazer parar de me doer, porque a morte das pessoas que amamos não equivale ao desaparecimento dos afetos e emoções.

Hoje amanheci mais cedo do que é habitual e fui caminhar à beira-mar. Dei um passeio daqueles que arrumam as gavetas da vida e purificam pensamentos em desalinho. Quando me apercebi, as minhas lágrimas salgadas uniam-se às ondas quando te imaginei a caminhar de mão dada comigo. Não imaginas as vezes que sonhei com isto: tu ao meu lado a partilhar gargalhadas cúmplices sempre que tropeçássemos no branco das conchas ou na melodia dos búzios; as mãos entrelaçadas nos dedos um do outro; tu a guiares-me rumo a um destino que se afigurava brilhante à nossa frente. E quando percebi que jamais iriamos deixar as nossas pegadas desenhados na maciez da areia molhada, senti como lâminas frias, a água nos pés, sem que me pudesse aquecer no calor do teu abraço e deixei-me então cair sobre as vagas, na esperança que este sofrimento fosse levado para um mar longínquo.

Saí da praia, fugindo da tua ausência ali, e fui tentar aquecer a alma bebendo o sol no chá de uma esplanada. Pedi ao empregado uma infusão de menta que surgiu minutos mais tarde (sem que ele próprio soubesse) acompanhado de imagens tuas. Apesar de não teres sido convidado, ali estavas tu, na cadeira ao meu lado como sempre te sonhei, trazias um livro para partilhar frases soltas, caneta para registar as palavras que dão origem a novas histórias e caderno de capa preta para colorir a dois com as metáforas que sempre nos invadiram na espontaneidade das conversas.

Eu sei que o véu do tempo irá desvanecer a memória de todos os momentos doces e especiais que vivemos, lentamente… o ponteiro dos dias encarregar-se-á de atenuar o brilho dos teus olhos faroleiros, o som da tua voz a entoar melodias ao meu ouvido, a suavidade das tuas mãos no desejo da minha pele, mas como apagar o vazio deixado no peito desabitado e a tristeza de tudo aquilo que não vivemos?

 

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Texto: Sandra Barbosa

Todos os direitos de autor reservados

Imagem: Retirada da Internet

 

Quero ser como tu

por aspalavrasnuncatedirei, em 03.06.16

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- Mamã, quando for grande quero ser como tu! - dizia eu pendurada no teu pescoço enquanto me abraçavas feliz e me pegavas ao colo fazendo-me rodopiar no ar. Trago na mais doce das lembranças os passeios que dava dentro dos teus sapatos de salto alto, metia os meus pés minúsculos dentro das tuas sandálias elegantes e caminhava desengonçada na cozinha para ouvir os saltos tilintarem nos mosaicos.

O tempo jamais apagará a imagem pateta do meu reflexo no espelho quando vestia os teus vestidos. Lembro-me especialmente de um branco com flores com vários tons de azul que iluminavam ainda mais os teus olhos cor de céu e que me enchiam de orgulho quando o vestias e te via, jovial e esbelta, ao portão da escola. Eu olhava para ti e sentia-me a mais sortuda das meninas, constatava sempre que eras a mais bonita das mães que ali aguardavam pelos filhos. À tua volta uma aura angelical, que ainda hoje te caracteriza, contagiava todos ao teu redor. Recordo o dito vestido a arrastar pelo chão, eu, muito pequenina, 5 ou 6 anos de gente, escondida na imensidão do linho, que a ti te assentava como uma luva, olhava para o meu reflexo e tentava encontrar alguma coisa que projetasse a tua beleza no meu reflexo em ponto pequeno.

Hoje, quando passo blush pelo rosto, são frequentes as vezes em que viajo no tempo e rememoro os momentos em que assaltava a tua prateleira de maquilhagem. Quantas vezes o meu rosto de menina-travessa se transformou em arlequim fora do carnaval? Quantos batons te estraguei? Quantas toalhas imaculadamente brancas eu sujei de negro para retirar o rímel dos olhos, na esperança vã que nunca descobrisses?

Ainda tenho guardada a memória das nossas noites de mimo, embrulhadas numa mantinha, dos serões de conversa animada, ou daqueles momentos em que chorava no teu colo a tristeza que às vezes me invadia.

Cresci com um desejo enorme de ser como tu, envaidecia-me sempre que alguém dizia que eramos parecidas, que tínhamos o mesmo sorriso, a mesma voz. Com o passar dos anos apercebi-me da sorte que era ser tua filha, ser educada por alguém com os teus valores, partilhar a vida com alguém tão especial. Reconheço em ti a doçura, a bondade, o espírito de trabalho, entrega, sacrifício, o altruísmo, que não reconheço em mais ninguém. Tento encontrar-te defeitos, mas não existem, quanto muito poderia dizer que és demasiado boa pessoa, que proteges carinhosamente, que acreditas excessivamente nos outros, que te sacrificas descomedidamente pelos que amas, mas serão isso defeitos?

Hoje também sou mãe e continuo a querer ser como tu. Ensina-me a ter as respostas certas nos momentos sombrios dos meus filhos, como fizeste comigo, aconselha-me as palavras sábias que iluminam os atalhos da vida, diz-me como transformar o meu peito num porto seguro, daqueles em que acolhemos a nossa prole quando naufragam nas escolhas da vida e é em nós que encontram a paz para ancorar. Revela-me o segredo dos teus abraços, que embalam e projetam com coragem, para os desafios diários a enfrentar. Ensina-me a ser melhor pessoa a cada dia, a ser amada pelos meus filhos, como tu és por mim.

 

 

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Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

 

Quanto mais te apago, mais te acendes

por aspalavrasnuncatedirei, em 14.05.16

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É inútil esta minha insistência em tentar esquecer o que sinto por ti e em abandonar a ideia de que um dia fizeste parte da minha existência porque… quanto mais te tento apagar e transformar em cinzas, mais te acendes de forma radiosa em mim.

Foi por isso que desisti, deixei-me cair no chão frio, acenei o lenço branco pedindo paz, baixei os braços em sinal de tréguas, cessei de gritar e de tentar desesperadamente fazer-te escutar o meu amor, através da minha voz já tão cansada. Decidi entretanto silenciar o batimento do meu coração, que a cada compasso bombeia o teu nome, respirei fundo e admiti que na vida há um tempo para amar e um tempo para deixar ir; uma época para rejubilar de contentamento e uma estação para enxugar as lágrimas; há instantes de prazer supremo mas também existem dias de sofrimento inigualável, e por último, temos ocasiões para vestir o corpo com as cores da felicidade, para logo a seguir nos trajarmos de luto na alma e de negro no corpo.

Todos os dias recomeço, paulatinamente, esta tarefa hercúlea de te esfumar, quando a cada amanhecer o teu sorriso me acomete nas recordações de te ver na cama ao meu lado, fecho os olhos para te guardar e deixo que essas imagens divaguem sobre mim. Ao olhar-me ao espelho se procurar no reflexo a essência do que restou de mim depois de ti, e se for o teu rosto delicado que recebo de volta, aceito que assim seja e já não luto contra isso porque reconheço que o meu melhor… continuas a ser tu.

Sempre que o peito começa a doer de saudades e as lágrimas me invadem em cascatas de dor, já não fujo para a rua para dissimular que estou bem, não me escondo em jantares com amigos, não aplico horas extraordinárias ou coisas insignificantes, nem me perco em passeios por ruas apinhadas de gente e desertas de ti. Deixo simplesmente que despontes, que me assoles, que me desarrumes as gavetas do corpo, da alma, das emoções e sentidos, porque negando-te é fazer-te (re)nascer em mim, com mais ímpeto, com a voragem típica que só entende… quem viveu um grande amor.

E aqui estou, no mesmo sítio de sempre; cá me encontro no local de todos os dias, nem sei bem à espera de quê, aguardo apenas pacientemente a cada amanhecer que (me) passes, que te dissolvas, que te apagues...de vez…

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Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

E tu… és feliz ou fazes de conta?

por aspalavrasnuncatedirei, em 20.04.16

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Foste embora com a desculpa que querias ser feliz e que a felicidade já não morava em nós. Disseste que desejavas uma vida mais animada, marcada por novos desafios, povoada por outras pessoas, mais intensa de emoções. Disseste tudo isto numa frieza que até então desconhecia em ti, e fiquei suspensa como aranha na teia em quarto escuro, com o eco das tuas palavras a surgirem como vagas contra mim, a lutar contra as evidências: já não me amavas…

 

O tempo passou dolorosamente longo e os meus dias oscilaram entre a tristeza profunda, o facto de não entender o rumo do teu afeto, o desejo premente que o arrependimento falasse mais alto e te fizesse regressar a casa, mas invariavelmente… tentei aceitar as tuas decisões.

 

Meses mais tarde, sem estar à espera que a ironia do destino me pregasse uma partida, cruzei-me contigo por acaso num bar. Eu, que continuo a não acreditar em acasos, percebi que afinal, a felicidade que tinhas ido procurar, tardava, e ainda não tinha chegado.

 

Naquela noite, eu cheguei com as amigas habituais, aquelas que me acompanham há tantos anos, as mesmas que me enxugaram as lágrimas quando partiste, que apareceram ensonadas em minha casa nas madrugadas mais sombrias, naquelas em que fui assaltada e consumida pelas saudades de nós. Essas amigas, que me levaram chá de maçã e canela à cama para me tentar reconfortar e ajudar a adormecer tranquila, que trouxeram gelado e bombons (a maior terapia para a dor de cotovelo) foram as mesmas que me arrastaram para uma girls night naquele sábado à noite.

 

Foi com elas que cheguei ao bar, tímida e desconfortável, mas com vontade de redescobrir o meu sorriso, cauterizado pelas lágrimas em que me fui cristalizando, levava um vestido branco, a condizer com a minha alma singela, esvoaçante como as aves primaveris que iniciavam o seu voo noturno, um vestido daqueles que prende o olhar dos homens da tua laia e aumentou por isso a minha autoestima tão fragilizada. Passei a noite a dançar e senti-me novamente leve e viva.

 

O rumo da minha dança mudou de forma drástica… não esperava cruzar-me contigo quando ao balcão pedimos ao mesmo tempo uma Caipirinha ao Barman. Ficámos imóveis sem saber o que dizer, os espetros do passado, dos dias em que a tua felicidade se fez ao meu lado, assaltaram-nos numa avalanche de sentimentos confusos e contraditórios.

 

- Olá, como estás?» Perguntei quando recuperei a voz.

 

- Boa noite. Respondeste tu e o cabide que te acompanhava.

 

Ao teu lado gravitava uma mulher muito diferente de mim: mais nova, mais alta, mais magra, escandalosamente mais bonita. Os teus olhos, que eu outrora conheci brilhantes e apaixonados, estavam baços, vidrados, distantes, completamente desapaixonados pela pessoa que te acompanhava. Curioso… viveste sempre rodeado de pessoas que te estimavam, agora estás acompanhado pela solidão e pelo abandono. Os teus amigos… onde estão eles?

 

Pela madrugada fora os nossos olhos cruzaram-se com frequência. O que a nossa boca não disse, o nosso olhar confessou.

 

Fui-me embora antes de ti e ao chegar cá fora avistei o teu carro. Incentivada pela Caipirinha que tinha bebido, deixei um bilhete no vidro. Era hábito entre nós a troca de mensagens cheias de mimo, pensei que não devia perder esta oportunidade. Escrevi: «E tu, és mais feliz agora ou fazes de conta? Marquei-o com um beijo de batom vermelho e elevei o meu pensamento. Naquele instante, agradeci, de coração, o facto de teres saído da minha vida e me teres libertado de ti para poder ser verdadeiramente feliz.

 

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Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

Na cauda do teu piano

por aspalavrasnuncatedirei, em 15.04.16

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Aproximei-me lentamente para que não sentisses a minha presença. Mesmo antes de ver a expressão do teu rosto, percebi que não estavas bem. Só te entregas ao piano quando os teus dias são sombrios, quando a pressão no peito é tão forte porque lá dentro o coração ameaça explodir, é que purificas a alma na Moonlight Sonata de Beethoven. Naquele instante, os teus dedos, como varinhas mágicas, transferem para o teclado, todas as emoções que te habitam. Invejo-o, porque lhe tocas, são aquelas teclas pretas e brancas, maravilhosamente melodiosas, desumanamente frias, que recebem o calor da ponta dos teus dedos. São elas que acariciadas, gemem por ti.

Queria que me entregasses o teu medo, que depositasses em mim a tua raiva, a tua frustração, que encontrasses em mim o teu porto de abrigo, a tua alma conselheira. Mas não consegues, a tua alma é feita de pautas, de acordes, não de palavras e por isso, é sempre o piano que te recebe. Hoje decidi ganhar esta guerra fria e vou entrar na partitura que construíste à tua volta para te proteger. Vou entrar no teu mundo opaco e roubar ao piano o carinho que é meu.

Encosto o meu corpo ao teu em silêncio, fico imóvel… deixo que o calor do meu ventre te aqueça as costas. Inicialmente ignoras-me, estás demasiado cristalizado nos teus medos para te permitires sentir alguma sensação de conforto, mas eu não desisto e suavemente coloco as mãos sobre ti. Acaricio-te os ombros, tão tensos de vida, deixo que um fio imaginário se desprenda das minhas mãos e te faça uma transfusão de todo o meu amor. Começas a vacilar… aqui e ali uma nota ecoa fora do sítio… desço timidamente a minha boca ao teu pescoço para te arrepiar, provocando na música um som cada vez mais perturbado.

Subo com delicadeza para a cauda do piano, a camisa de noite sobe ligeiramente insinuando-te debaixo dela  o meu corpo que adivinhas nu. Lentamente… deito-me de barriga para cima lançando em súplica o meu amor ao céu, deixo-me cair para trás, entregando o meu corpo quente ao arrepio frio da madeira. O meu cabelo espalha-se docemente pelas teclas… a música para... os teus dedos repousam assustados e cansados em mim, agora a minha pele, que também conheces de cor, é o teu piano e o meu corpo é a partitura que desejas ler.

Compenetradamente, libertas-me do pedaço de cetim que trago vestido e que atiras para o lado, descobres a minha pele branca que contrasta com o negro do Steinway e admiras com um olhar penetrante cada pedaço de mim. A tua boca procura na minha o sopro de vida que lhe tem faltado para respirar, abraças-me em desespero e repousas a face no meu peito que reconheces como o templo que te pacifica. E é no momento em que te seguro no rosto para te fazer aportar nos meus olhos, que te esqueces da sombra dos dias e descobres o brilho faroleiro que te guia ao encontro do amor.

 

Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

Somos sempre menos na vida dos outros do que aquilo que imaginamos...

por aspalavrasnuncatedirei, em 10.04.16

 

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Hoje sonhei que tinha morrido num estúpido acidente de carro, estava a enviar uma mensagem ao meu marido "- Tira o frango do congelador" quando me despistei ribanceira abaixo.

 

O meu espírito, do lado de fora, assistia ao pânico das pessoas que se aglomeravam e ao aparato que se gerou à volta. Via o meu corpo ensanguentado dentro do carro e o sopro de vida a esvair-se de mim. A primeira coisa que me ocorreu foi "- Como é que eles vão viver sem mim?" e a minha alma desmaiou de aflição naquele instante.

 

Acordei 4 meses depois numa nuvem alcatifada, apressei-me a pedir autorização às hierarquias universais para vir cá abaixo (felizmente que no plano celeste existe menos burocracia) e vim à terra para visitar o sofrimento daqueles que me  amavam, mas... ninguém me tinha preparado para o que ia acontecer a seguir...

 

Trespassei as paredes da casa - já tinha visto isto num filme, e sempre tive vontade de o fazer - e vi o meu marido deitado no sofá a olhar para o telemóvel (desde quando é que tens um iphone 6?). Aproximei-me, já a padecer-me com a sua dor e vi-o… com uma camisa azul nova, barbeado, perfumado a cheirar a fresco, cabelo um pouco mais comprido, acho que tinha até um penteado novo. Lindo de morrer, como no dia em que o conheci. ESPEREM LÁ!!!!!! O QUE É QUE SE PASSA AQUI???? Este tipo está viúvo há 4 meses, não está vestido de luto, não tem um ar infeliz e está todo sorridente a enviar mensagens??? Como é que é possível? Estranho...

 

Aproximei-me para ler o que escrevia, possivelmente estaria a tratar dos negócios da quinta ou a conversar com as nossas filhas. Debrucei-me sobre ele e li...  O destinatário chamava-se "Chuchu"... CHUCHU"?!?!?!? Mas o que é isto?!?!?! O meu corpo ainda não arrefeceu e ele em vez de pensar que a vida não faz sentido sem mim, já está a convidar uma hortaliça para jantar????? 

 

Não quis acreditar no que via, já não tinha corpo para me doer, mas percebi, agora mais do que nunca, que as dores sempre foram de alma, levitei até ao primeiro andar para me pacificar com as minhas filhas que estariam certamente arrasadas com o meu desaparecimento tão prematuro.

 

Entrei pela porta do quarto, lá dentro ecoavam as gargalhadas das minhas meninas que frenéticas trocavam de roupa deixando tudo caótico à sua volta... - Meu Deus, como é que elas cresceram tanto em tão pouco tempo? A Sissi estava tão elegante naquele vestido preto e a Nucha ficava linda maquilhada. Oh não... outra vez não... mas o que é que aconteceu às minhas princesas?!?! Elas não sentem a minha falta??? Vão sair à noite?!?! Para onde? Com quem? O pai autorizou?

 

-  Sissi, despe imediatamente esse vestido porque ele é meu e custou-me uma fortuna!

 

- Nucha, vai lavar a cara e tira os saltos altos que não tens idade para isso!

 

A minha alma exausta... deambulou pela casa tentando encontrar resquícios meus por ali. Já não era o meu lar, era uma habitação onde a minha família morava...

 

Decidi visitar o escritório para confirmar se o caos se tinha instalado por lá também. Certamente que os meus colegas sentiam a minha falta. Pois é... agora não tinham quem resolvesse as asneiras que eles faziam. Quem trabalhava atualmente horas a mais no fim do dia? E aos fins de semana? E agora, quem respondia aos emails? Quem aturava os clientes chatos? Não me admirava nada que com o meu desaparecimento estivessem à beira da rotura. 

 

Ao chegar, reparei que se encontrava tudo como antes, tudinho! Estranhamente senti algum conforto, uma vez que ainda estava em estado de choque com o que vira em casa, mas ali, no local onde dei o meu sangue, suor e lágrimas durante 20 anos, estava tudo igual.

 

O diretor comercial continuava enrolado com a rececionista de decotes proeminentes, que por sua vez, permanecia proeminentemente decotada. O meu colega Américo lá estava afincadamente em frente ao computador... mas a ocupar o tempo no Facebook, a suspirar pelas vidas de mentira que via em cada perfil, para esquecer a ausência de alegria que subsistia na sua patética existência. A Isabel mantinha-se um polvo traiçoeiro, cujos tentáculos destilavam veneno, minando tudo e todos à sua volta. Portadora de uma língua viperina, com pernas de gazela numa minissaia ordinária, uma verdadeira cabra para as colegas, uma gata com cio atrás do tipo musculado dos recursos humanos, fazendo-se passar uma cadela fiel ao gestor financeiro, quando na verdade, anda armada em papagaio a vender informações sobre a nossa carteira de clientes. Irra!!!!! É muito bicho numa mulher só.

 

Olhei para o meu gabinete, aproximei-me lentamente... e vi que na minha secretária já não repousa a minha fotografia com a família nos Alpes, nem a foto do último jantar de Natal da empresa onde eu estava sorridente e feliz, na parede já não mora o meu diploma e na janela já secou, por falta de cuidado, a minha orquídea. Depositei a minha alma na cadeira, e morri novamente num despiste causado pelo abandono e desilusão e chorei, chorei, chorei como só uma alma em sofrimento sabe fazer.

 

E foi assim que acordei na minha cama... Lavada em lágrimas devido a um sonho sufocantemente real. Olhei para o lado, o Miguel dormia ainda com um leve sorriso (será que já anda  dar umas dentadas na Chuchu?)... fui ao quarto das miúdas e mantinham os rostos angelicais aos meus olhos de mãe. Fui tomar um duche e preparei-me para ir trabalhar.

 

Que sonho estranho... é esquisito descobrir que quando morres o mundo continua a girar sem a tua presença, que as pessoas que amas voltam a amar e que tu és apenas uma centelha divina que nasce, vive e morre. Não vale a pena sacrificares-te pelos outros, trabalhar até à exaustão, anulares os teus sonhos em nome da felicidade daqueles que achas que tens obrigação de proteger porque… somos sempre menos na vida dos outros do que aquilo que imaginamos...

 

 

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Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

Tão estranhos que nós somos

por aspalavrasnuncatedirei, em 05.04.16

 

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Saímos de casa com uma pontualidade britânica às 10:30 como sempre fazemos a cada manhã de domingo. Com movimentos mecânicos entramos no carro, sentas-te numa atitude machista ao volante, conduzes sempre que estamos os dois, mesmo que a viagem se faça no meu carro, eu já nem ligo, distraio-me com a companhia do rádio, mudando de estação emissora sempre que a melodia não me agrada.

 

Paras na pastelaria de sempre sem me perguntar se gostaria de me aventurar noutro espaço qualquer, sento-me na mesa do costume, virada para a rua habitual, só para me poder deixar aquecer pelo sol. De olhos vidrados vejo numa tela gasta de cinema a vida a passar diante dos meus olhos… conheço de cor todos os nossos rituais, sei com uma certeza dolorosamente absurda todos os movimentos que vamos fazer, todas as palavras que vamos dizer.

 

Vais pedir um café curto, em chávena fria, e um pastel de nata queimado, borrifado com canela. Pedes, como se eu não tivesse voz ou vontade própria, um chá de camomila para mim, desconhecendo que hoje em dia prefiro cidreira. Enquanto esperas, irás ler o jornal que saqueaste à mesa do lado. Começas a leitura pela página do desporto, saltitas pelos títulos da economia e vais ser interrompido pela vizinha do 5ºC que virá comprar pão, acompanhada pelo cão e tu vais aproveitar para brincar com ele. Enquanto as tuas mãos afagam o pelo do pastor alemão, recordo-me do tempo em que as tuas mãos tinham o poder de arrepiar a minha pele quando as sentia… Hoje, olho-as enrugadas, frias, distantes, incapazes de me provocar qualquer sensação. Subo o meu olhar das mãos aos olhos e não te reconheço… ou melhor, tens pouco do homem por quem um dia me apaixonei. Já não me fazes rir, talvez porque conheço as tuas piadas de cor e tu perdeste a capacidade de me surpreender com frases novas.

 

E quando os teus olhos regressam ao jornal, fito-te com um olhar longínquo e deixo-me vaguear tristemente. Tornámo-nos dois estranhos que coabitam no mesmo casulo. Tu sais de manhã para o consultório e vives uma felicidade novelesca com a tua secretária. Pensavas que eu não sabia? Sei, há muito que sei. Não consigo precisar quando o percebi, mas quando dei por isso há muito tempo que os teus beijos eram castos, os teus abraços eram fraternais e o meu corpo era invisível ao teu. Depois, foi só ver a forma como passaste a vestir roupas que são para homens com metade da tua idade, observar que gastas uma pequena fortuna em cremes antirrugas, que tudo à tua volta é anti age e que as horas extraordinárias que fazes a cada serão, se fazem acompanhar com o empenho da tua secretária.

 

Sabes o que é mais triste do que a traição? É a tua capacidade em me seres tão indiferente, é a minha frieza para não te sentir em mim, é o facto de seres uma vela apagada que há muito não ilumina a minha vida. Não me dói no corpo, nem na alma, muito menos na autoestima. O homem por quem me apaixonei aos 16 anos, que me fez mulher aos 18, com que me casei aos 21, o que me fez mãe aos 23 simplesmente já não existe, perdeu-se nesses caminhos empoeirados, tornou-se um adereço como qualquer outro lá de casa, e, fatalmente tornou-se cego à pessoa em que me transformei também.

 

Bebo um gole de chá que arrefeceu de desapontamento na chávena só para me ajudar a esquecer esta solidão a dois, para engolir esta insatisfação de ainda partilhar contigo os rituais de domingo.

 

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Texto: Sandra Barbosa

(Todos os direitos de autor reservados)

Imagem: Retirada da Internet

 

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